Ìgí Orere – Árvore da União; Revitalização e participação negra no Centro Cultural do Jabaquara

Por Pedro Neto

“A feiticeira não é feroz, ela não pode comer a semente dura”.
Provérbio yorùbá

Minha breve história de uma Árvore

O Centro Cultural Jacob Salvador Zveibil, de 4.000 m2, chamado pela população de Centro Cultural do Jabaquara, o primeiro espaço público de cultura da cidade de São Paulo inaugurado em 12/06/1980 na primeira gestão da Secretaria Municipal de Cultura foi construído a partir das políticas culturais francesas desta época. A administração do prefeito Reynaldo de Barros e do secretário de cultura (1979 a 1980) Mário Chamie, poeta e implementador do Projeto Periferia.

Somente em 25/01/1992 foi inaugurado no mesmo local o Acervo da Memória e do Viver Afro-Brasileiro Caio Egydio de Souza Aranha (Pai Caio de Xangô) na administração da prefeita Luiza Erundina do Partido dos Trabalhadores – PT e da secretaria de cultura (1989-1992) Marilena Chauí, filosofa voltada para o desenvolvimento do Programa Cidadania Cultural. A grande articuladora na construção do Acervo foi Mãe Sylvia de Oxalá, sobrinha de Pai Caio que sempre dizia: “o negro deve ter um local para a criação e manutenção de sua própria memória”. É notável nas atas de reuniões e nos documentos de inauguração do Acervo, discussões acaloradas sobre a necessidade de se fazer ouvir e respeitar os “afrodescendentes” como integrantes na construção do Brasil e consequentemente participantes da luta pelo fim do preconceito e do racismo.

Na administração de Martha Suplicy do Partido dos Trabalhadores – PT e do secretario de cultura (2001 a 2004) Celso Frateschi o Acervo passa integrar, de fato, as Casas de Cultura que tinham como uma de suas finalidades: “afirmar a cultura como direito dos cidadãos”. Neste período o Acervo cria localmente o Fórum de Cultura do Jabaquara, participa ativamente da I Conferência Municipal de Cultura e desenvolve prioritariamente oficinas, cursos, exposições, festivais de música, teatro, cinema e vídeo sobre a arte e cultura negra. Atende mais de 53 mil pessoas. Em 2005 a administração do Centro Cultural passa a ser feita pela Subprefeitura do Jabaquara.
Somente na administração do prefeito Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores – PT (2013-2016) e dos secretários de cultura Juca Ferreira e Nabil Bonduk o Centro Cultural do Jabaquara volta a ter sua governança feita pela Secretaria Municipal de Cultura. A reinauguração do Acervo se dá em 20/11/2015 com uma diversa programação negra.

Alguns galhos

Desde sua inauguração passaram neste espaço centenas de profissionais da arte e da cultura negra. Não serei leviano de citar nomes, pois com certeza irei esquecer algum. Professoras(es) negras(os) do teatro, da musica, de canto, dança, artes plásticas e visuais ministraram oficinas e cursos. Cantoras e cantores negros renomados se entrelaçaram a artistas amadores. Grupos, blocos, agremiações de São Paulo e de vários estados do Brasil apresentaram-se e nasceram no Acervo.

Árvore da União

Hoje o Centro Cultural do Jabaquara é formado pelo Acervo da Memória e do Viver Afro-Brasileiro Caio Egydio de Souza Aranha, pela Casa do Sítio da Ressaca e pela biblioteca temática em cultura afro-brasileira Paulo Duarte (poeta que junto com Mário de Andrade e Sérgio Millet criaram o Departamento de Cultura) e por uma grande área verde onde majestosamente encontra-se nossa árvore, nossas negras raízes.

No dia 13/02/2016 reuniram-se embaixo desta árvore mais de uma centena de artistas, representantes de grupos, moradores, funcionários para a criação do Fórum de Cultura do Centro Cultural. Muitas destas pessoas regam ou já regaram a frondosa árvore.

Na pauta questões como o regulamento, um edital de fomento local (no prelo), conselho consultivo, associação de amigos e a inclusão – daquela que plantou esta árvore – no nome do Centro Cultural – Mãe Sylvia de Oxalá, lá representada por sua sucessora Mãe Paula de Oya.

Vi, como sempre vemos o pulsar incessante e sem trégua de mais uma possibilidade deste espaço ser reestruturado a partir e prioritariamente com e para a Cultura Negra e por seus detentores.

Inegável a proposta de união oferecida pelo Secretario Municipal de Cultura, lá representada pelo coordenador do espaço o Sr. Anderson John, pelo Assessor de Gabinete da SMC o Sr. Alexandre de Oliveira e pelo Diretor do Centro Cultural da Juventude “Ruth Cardoso” o Sr. Ricardo Ponzio Scardoelli, este ultimo nos apresentou as experiência de participação popular e cidadã que já estão ocorrendo no CCJ.

Na primeira quinzena de março ocorrerá outra reunião entre artistas, grupos e moradores para debater o edital de fomento do Centro Cultural. Venham, tragam água para nossa árvore, tragam união entre poder civil e o poder público, tragam suas experiências e também a criticidade para combatermos o racismo e fazermos fruir com dignidade a cultura negra de nossa cidade. Eu acredito!

Mais informações:
Centro Cultural do Jabaquara
ccjabaquara@gmail.com
11 – 5011-2421

Consultas e sugestões de Leitura
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/noticias/?p=19260
http://www.kultafro.com.br/2013/03/um-pedaco-da-africa-em-sao-paulo/
www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27134/tde…/tese_lia_completa.pdf

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