Ato “A paixão de Claudia” leva mais de 800 pessoas para o centro de São Paulo

Sexta-feira da paixão. Como de costume, os tradicionais rituais católicos aconteceram. E em frente à igreja da Consolação, centro de São Paulo, havia uma proposta diferente. Pessoas se reuniram a partir das 14h para o ato intitulado “A paixão de Claudia”, manifestação em repúdio à morte de Claudia Ferreira da Silva durante uma operação da Polícia Militar no Morro da Congonha, Rio de Janeiro, em 16 de março. Ela teve seu corpo arrastado pela viatura por 300 metros.

Ritmada por tambores, a caminhada até a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, clamou pelo fim da violência racial, social e de gênero. Organizado de forma coletiva por ativistas, artistas, produtores e empreendedores negros, cerca de 800 pessoas estiveram na manifestação, contabilizando os participantes da passeata e os transeuntes que assistiram as atrações culturais.

Manifestantes durante ato “A Paixão de Claudia” no centro da cidade de São Paulo – Foto: Nego Júnior

“Ficamos muito felizes com o resultado. Foi um trabalho que partiu da sociedade civil e organizado sem nenhum apoio. Conseguimos conectar outros cidadãos incomodados com o caso e todos se sentiram confortáveis em participar do ato, sem intervenção de instituições e de forma apartidária. Eram crianças, idosos, homens, mulheres, negros e brancos mobilizados por um causa”, conta Renata Felinto, uma das organizadoras.

Usando roupas brancas ou pretas e com uma rosa vermelha nas mãos, o ato levou arte, dor, luta política e amor para as ruas de São Paulo. Na chegada ao Largo do Paissandu, onde um palco improvisado deu espaço a atrações artísticas, todos deixaram suas flores na estátua da Mãe Preta, simbolizando as mulheres negras que trabalharam, trabalham, criaram e criam os filhos do nosso país.

“A Claudia poderia ser a mãe deles”, disse Natália Marques, 27, ativista, artista e educadora, comentando os cartazes criados por crianças e jovens de 10 a 14 anos do bairro Boqueirão, localizado no Ipiranga. Ela incluiu o caso da Claudia em uma de suas aulas a partir dos depoimentos de violência que cada um deles contou vivenciar. O resultado foi pinturas e artes que clamam por dignidade, respeito e liberdade.

O trabalho traz um olhar de dentro para fora: da periferia para o centro e da história deles para o público. “Esse ato é contra a neutralização da violência, principalmente contra as mulheres pretas e periféricas. É por uma inclusão verídica. Fala-se dessa inclusão o tempo todo, mas onde somos incluídos? Na violência!”, complementa Natália.

Dança, música, intervenções teatrais, poemas e pitadas constantes de paixão conduziram a manifestação político-cultural até a noite. Alexandre Fernandes da Silva, marido de Claudia, estava presente. “Foi a primeira manifestação que consegui participar”, contou.

Alexandre Fernandes da Silva, marido de Claudia - Foto: Nego Júnior

Alexandre Fernandes da Silva, marido de Claudia – Foto: Nego Júnior

Com os olhos marejados por mais de uma vez, mas ao mesmo tempo atento aos detalhes e pronto para receber cada abraço de solidariedade, Alexandre disse que sentiu uma energia positiva. “Eu não estou sozinho nessa luta, todos os atos estão me dando força para seguir lutando.” Agora é Alexandre que cuida dos quatro filhos e quatro sobrinhos, ele procura não ficar muito tempo longe de casa. “Mas foi muito bom ter aceitado o convite e estar aqui”. E com um sorriso no rosto, brincou: “Dizem que os paulistas são frios, mas isso é mentira”.

E Ana Paula Xongani, 26, empresária, carregado sua filha de apenas três meses no colo, falou como ser mãe da pequena Ayoluwa a trouxe uma dose maior de esperança por uma sociedade mais igualitária. “Ela precisa estar aqui para ter histórico e referência de luta, mesmo que não se lembre, quero que fique em sua memória fotográfica. E eu espero que ela viva futuramente um ambiente mais confortável, mas não menos militante.”

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