O que é que Bahia tem e vai mais além?

Por Luiz Paulo Lima

                     …Ogum é quem domina…..mas a essência de Othelo é de Xangô..\ Elísio Pitta

Elisio Pitta no Museu Afrobrasil foto Luiz Paulo Lima

A Bahia já nos deu régua e compasso, como bem disse em forma de musica Gilberto Gil, mas também nos deu o produtor,ator,  coreógrafo e dançarino Elisio Pitta, que concedeu nesta semana uma entrevista exclusiva à Rede Kultafro em visita à cidade de São Paulo.

Quando ligamos os canais abertos de televisão, fica a impressão no imaginário dos telespectadores que o “Axé music” , é o produto “made in Bahia” mais mostrado e vendido internacionalmente  . È claro que a Indústria Cultural faz a sua lição de casa, mas não expressa de toda a verdade. A Bahia é muito mais.

Elísio Pitta, um dos 6 filhos homens de uma família de 10 irmãos, decidiu desde cedo que o corpo era o canal de expressão e de comunicação  que iria adotar para o resto da vida. Hoje, aos 57 anos de vida, depois de ter passado pelas maiores  Companhias de Dança do Mundo como Balé do Século XX, criado por Maurice Béjart (Bélgica) e a companhia de Alvin Ailey (EUA). Atuou também em grandes grupos de dança no Canadá, Inglaterra, Argentina, Peru e Haiti, além dos próprios EUA, acredita estar no seu melhor momento pessoal e profissional.

Kultafro- Retorna aos palcos baianos depois de 20 anos para produzir, ensaiar e apresentar uma versão do clássico “Othello- Ensaio cenográfico” de William Shakespeare , Qual o cenário que você encontrou para desenvolver o seu projeto?

Elisio – Eu faço uma dança negra contemporânea, incluindo ingredientes da capoeira, mistura de épocas, balé clássico e um olhar negro urbano.  Mas continuo sentindo a falta de ícones, referências contemporâneas negras que também se expressam  nessas linguagens, escassez de recursos financeiros e técnicos, e a Bahia não tem essa diversidade de soluções que encontramos aqui em São Paulo por exemplo…

Kultafro- Porque a opção por Othello?

Elisio- Othello é atemporal. A história do general mouro que serve ao reino de Veneza, escrito em 1603, poderia ter acontecido hoje…..em uma cobertura nos jardins ou na Cidade de Deus. O texto e o contexto fala da banalidade no valor da vida…Consegui desplumar Othello…Um general em terra estrangeira…Mostra o quanto a natureza humana é frágil…a rede de intrigas generalizadas…Xenofobia, racismo e inveja  revelam a fragilidade do personagem.

Kultafro – Como desenvolveu a logística do espetáculo?

Elisio  – A combinação com a equipe técnica foi sedimentada de maneira harmoniosa. A Irma Vidal fez a Luz…. A Luz é um sonho…Uso recursos audiovisuais. Fui buscar na fotografia do cinema, para incorporar na tessitura dramática e coreográfica, com a contribuição do argentino radicado no Brasil desde 1974. Gatto Larsin, que criou imagens nas telas, proporcionando a sensações como se fossem quadros de cinema. Ele tem o domínio da linguagem e manipula isso muito bem.

Kultafro _ Você se sentiu confortável com o resultado?

Elísio – Diante de uma obra monumental…nada está concluído. Ela vai estar por algum tempo  em evolução. Esse  ensaio coreográfico é a soma de tudo que somos…. Artistas negros.. . O nosso conservatório é a rua.. a grande universidade…a partir daí as soluções para se qualificar..transformar essa herança em algo intangível.

Kultafro- O que a critica disse do espetáculo?

Elisio- Não falou nada. Não temos uma crítica especializada negra , com conhecimento daquilo que estamos fazendo, apresentar , contextualizar o espetáculo na linha do tempo e ao mesmo tempo informar com conhecimento e competência os publicos. Ouvi de pessoas dizerem…esse espetáculo  não é pra qui…È muito refinado…entendo que dança está em um estado de desprofissionalização…Tem muitos grupos com potenciais…mas muito amadores…fazem por amor…vivem de editais….vão ensaiar sub-nutridos, mal pagos…algo que não condiz como o esforço que é sublime. “Mas no mundo cão” eu só vou assistir a um espetáculo de alta qualidade. Caso contrário não vai acrescentar em nada na minha vida.

Kultafro- E algum momento você se viu dependente dessa relação com as ditas políticas públicas?

Elisio – Vou esperar o que dos governos e dos editais? Nesse modelo não saio dos lugar…..Como diz Geraldo Novaes um grande amigo, “ “O  Elisio é o único que é o próprio mecenas dos seus trabalhos”…eu vou buscar recursos aonde estiverem. Me aproprio deles e preparo um espetáculo de alta qualidade durante 6 meses, remunerado e remunerando todos os artistas envolvidos no projeto, para poder levar o espetáculo para qualquer lugar do mundo.

Kultafro- Quais são as suas metas agora?

Elisio– Olha só, todas as apresentações que fiz foram de salas lotadas. Isso demonstra que estou no caminho certo. As pessoas  querem assistir  espetáculos de qualidade.A nossa meta é no primeiro bloco, atingir 100 apresentações no Brasil. Eu sou um cidadão do mundo…sempre estou de passagem por tempo indeterminado…interessado em ver coisas diferentes…ajudar a transformar o lugar onde moro e vivo….ver, absorver, transformar e compartilhar.

Kultafro – O que vem para o próximo ano?

Elisio- Já estou há um ano na incubadora do espetáculo “Z” , tão monumental quanto Othello..que pretendo apresentar em 2014. E para 2015, pretendo participar de festivais na Inglaterra. Me aguardem!!!

Foto da Home: Luiz Paulo Lima

Comments: 2

  • leno
    Leno Silva dezembro 12, 2013

    Muito boa a entrevista, principalmente no que diz respeito ao profissionalismo que o Elisio Pitta impõe aos seus projetos.

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  • Áriston Batista dezembro 19, 2013

    O Elisio Pitta tem resultado nos trabalhos porque tem foco nas suas criações. Um artista com esse “nipe” e com tal expressividade consegue espaço pra trabalhar no mercado cultural e reconhecimento de seu público. Parabéns pela entrevista.

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