Atriz Chica Xavier, que acaba de ganhar biografia, é mãe de santo em Sepetiba

Por Redação Kultafro

A atriz Chica Xavier na entrada da Irmandade do Cercado de Boiadeiro, o terreiro que fundou em casa .

Bruno Cunha

Foto: Pauty Araujo / Extra

Torço de seda, pano da costa e saia engomada toda baiana tem. Mas um tabuleiro com 57 anos de carreira artística nem a personagem cantada na letra de Carmem Miranda tem. Só mesmo ela, a moradora de Sepetiba, nascida em Salvador, que agora dispõe de uma biografia para servir aos fãs.

Nas 178 páginas do livro “Chica Xavier – Mãe do Brasil”, a escritora Teresa Montero registra a trajetória da atriz global na TV, no cinema e no teatro, onde estreou na carreira. Era dia 25 de setembro de 1956 quando Chica pisou no palco do Teatro Municipal como a Dama Negra, em Orfeu da Conceição.

– Vim para o Rio para estudar mesmo a arte de fazer arte – relembra a atriz.

Para Teresa, a viagem até aqui é um dos momentos mais marcantes.

 

– Imagina deixar a mãe em busca de um sonho, o de ser atriz, e realizá-lo? E isso nos anos 50 – afirma.

Tempo de casada é o mesmo de carreira

Na busca pelo amor de sua vida, o teatro, Chica Xavier descobriu um outro no coração. E que atende pelo nome de Clementino Kelé, também ator e marido. O então amigo da atriz, em Salvador, virou namorado quando soube da viagem dela ao Rio.

Ele não pensou duas vezes: apareceu de surpresa no ônibus, quando ela fazia o primeiro trajeto Salvador-Rio, para acompanhá-la. De mala e cuia, é claro.

– E o mais interessante é que foi o meu primeiro namorado. Por ele, eu sou capaz de qualquer loucura. Até fiquei inimiga de um colega que agiu com falsidade com Kelé.

Com o tempo de casamento, que é o mesmo de carreira, vieram os quatro filhos (um deles é o ator e diretor Miguel Falabella, o amigo considerado filho). E depois outros, que nasceram da relação espiritual de Chica, mãe de santo na Irmandade do Cercado do Boiadeiro, o terreiro que fundou há aproximadamente 34 anos.

A atriz mostra a biografia, que acaba de ser lançada Foto: Pauty Araujo / Extra

Exú foi quem levou Chica para Sepetiba

Para acolher todos os filhos de santo, Chica precisava de uma casa. E Exú, o mensageiro dos orixás, também. O apartamento no Humaitá, onde a atriz morava, não dava conta.

– Não se pode ter assentamento (representação) de Exú acima da cabeça das pessoas. Ele deve ficar sempre no chão – revela.

Foto: Pauty Araujo / Extra

É por isso que Exú foi o primeiro a entrar (e morar) no terreno de Sepetiba, onde Chica vive com Kelé e alguns filhos. E onde já dirigiu muita sessão de umbanda e consultas.

Chica Xavier no quintal de casa Foto: Pauty Araujo / Extra

Os encontros espirituais costumam acontecer uma vez por mês e são sempre restritos a amigos e familiares. Mas, atualmente, também são comandados por Luana Xavier, neta de Chica, já escolhida como sua sucessora pelo caboclo Boiadeiro, mentor da casa.

– Em algumas cenas que fiz, ligadas à religião, as pessoas ficaram arrepiadas no estúdio – lembra.

Foi o caso do teste para viver a mãe de santo Magé Bassã, na minissérie “Tenda dos Milagres” (1985).

– Cantei a cantiga de Exú durante o teste. Consegui o papel – festeja ela, até então vista como muito nova para a personagem.

Estreia na TV foi em ‘A Cabana do Pai Tomás’

Magé Bassã foi um dos marcos na carreira da atriz, que viveu mãe Setembrina em “Duas Caras” (2007), Inácia em “Renascer” (1993) e Nhá Rita em “Esperança” (2002), além da Bá, de “Sinhá Moça”. São mais de 50 personagens em novelas como “A Cabana do Pai Tomás” (1969), onde estreou.

— A partir de “Tenda dos Milagres”, ela começou a ser chamada para papéis ligados às religiões de matrizes africanas — observa Bela D’Oxóssi, uma das filhas.

Chica em cena, como Magé Bassã, em ‘Tenda dos Milagres’.

Chica em cena, como Magé Bassã, em ‘Tenda dos Milagres’.Foto: Arquivo pessoal / Reprodução

E aí é que Chica não tirava mesmo da orelha os brincos coral, usados por mães de santo de Iansã, a exemplo dela.

No ar, como Bá, em Sinhá Moça.Foto: Arquivo pessoal / Reprodução

— Nenhuma figurinista me tira esse brinco. Algumas até falaram: bota esse aqui. Mas digo que de jeito nenhum. Não tiro nem para dormir — avisa.

E assim, respirando o ar puro da chácara, vai vivendo, rezando antes de dormir (‘sou católica, ela diz’) e até cozinhando.

Atriz na novela “Força de um desejo”/Foto Extra

— Baiana que não sabe cozinhar não arranja marido. Acho que o bife na manteiga com farofa conquistou o meu — brinca.

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