A Magia da dança com Daioner Romero

Por Leno F. Silva

 

“A arte é um mundo de magia, que constrói não apenas corpos e caráter, mas também ilumina a alma”, Daioner Romero.

Daioner Romero é diretor artístico, produtor de dança e cultural, professor e coreógrafo. Atua há mais de 30 anos no mundo da dança, por meio de espetáculos, companhias, escolas de dança, eventos filantrópicos e programas televisivos no Brasil e na Itália. Com formação em dança que inclui professores nacionais e internacionais.

Kultafro:  Quem é você: onde nasceu, cresceu, estudou? E a sua família: é de São Paulo ou de outro estado brasileiro? Há quanto tempo você vive em São Paulo?

Daioner Romero: Nasci em Ilhéus Bahia. Cresci em São Paulo dos anos  60 (Anos Dourados). Estudei no Colégio Nossa Senhora da Paz, na Baixada do Glicério, no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas, e no Colégio Objetivo. Na fase universitária entrei na Universidade Braz Cubas em Arquitetura e, na sequência, na Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM.

Não conclui o grau universitário, pois decidi ser artista. Minha família está em vários cantos do Brasil. Tenho parentes no Sul, no interior de São Paulo (Guararapes) e na região Sul da Bahia. Com muitos deles eu nunca fiz contato, pois minha mãe rompeu relações por motivos ideológicos.

Moro em São Paulo há 53 anos e hoje me considero 100% “Paulistano”. Sou fruto desta cidade, embora não esqueça a importância e a essência das minhas raízes.

Kultafro:  Como a dança entrou na sua vida?

Daioner Romero: A dança entrou na minha vida de duas formas. Primeiro, pela influência da profissão de minha mãe, que era bailarina de show (cassinos, casas noturnas, vedete de chanchadas). Muitos anos depois como eu sempre gostei de soul e música black, acabei fazendo aulas de dança após assistir a uma impressionante apresentação dos Dzi

Croquettes. Depois desse evento senti que a dança era aquilo que queria fazer pelo resto de minha vida. Vi na dança liberdade, sensualidade, espiritualidade, tolerância, disciplina, beleza exterior e interior. Desta forma iniciei meu treino em 1975 e nunca mais parei. São 37 anos dedicados à dança e, como professor, atuo há 33 anos.

Participei de grupos amadores, semiprofissionais e, por fim, entrei em uma Companhia Carioca chamada “Plataforma 1”,  que apresentava shows folclóricos brasileiros em diversos estados do País, e no exterior. Ministrei também aulas na Itália participando, inclusive, de programas de TV locais.

Minha formação em dança contemplou todas as etapas, passei praticamente por todos os gêneros, menos o sapateado. Hoje atuo como professor, coreógrafo, diretor artístico e produtor de dança e cultural.

Nesse caminho, investi na criação do Patchwork Jazz, uma linha criativa que consiste na fusão de diversos estilos de dança, entre eles a New Dance, Show Business, Afro, elementos do balé Moderno e do Contemporâneo, técnica Luigi (New York) e Gus Giordano (Chicago), além de todos os mestres que pacientemente ajudaram a compor meu entendimento dessa maravilhosa forma de expressão artística.

Kultafro: Fale um pouco mais sobre o Patchwork Jazz.

Daioner Romero: Quando resolvi dar um nome a esta nova forma de ensinar o Jazz, em princípio o denominei de Crypto Dance, mas depois da minha estadia na Europa, decidi mudar definitivamente para Patchwork Jazz, nome que realmente expressa e retrata minha metodologia: um caldeirão de estilos, uma colcha de retalhos amarrada ou costurada pelo Jazz.

O trabalho nas aulas reúne movimentos sensuais, técnicos e ancestrais. Utilizo exercícios de centro de sala, barra, chão, eixo, balance, diagonais, small jumps, grande saltos e de coordenação. Não sigo uma rotina rígida, o que torna isso um diferencial, pois mudo o argumento da aula de acordo com o conhecimento dos alunos. Cuido da técnica, mas me empenho, principalmente, em passar a todos o vocabulário que os permita dançar de acordo com a proposta, seja ela qual for. Altero o ritmo e a cadencia da mesma coreografia diversas vezes durante a aula, para conduzir o aluno a ser adaptável. O Patchwork Jazz não cria robôs, mas busca desenvolver alunos com massa crítica e desenvolvimento corporal.

Kultafro: Quais são as trilhas sonoras dessas aulas.

Daioner Romero: Este é um capítulo a parte, pois uso as músicas mais adequadas, melódicas e curiosas. Em cada aula, passeamos pelos grandes movimentos musicais da década de sessenta até os dias de hoje. Não me atenho às melodias da moda. Se um som “bomba” na FM, com certeza evito tocá-la em aula, para oferecer ao aluno canções exclusivos como lounge, rock, blues, soul, new soul, world music ou percussivos. A seleção das músicas é fundamental não apenas pela melodia, mas também pela essência e pela integração com estilo. Representa a história de um artista ou movimento musical. Isto é o Patchwork Jazz: aula, música e movimento com muita pesquisa.

Kultafro: Fazendo uma retrospectiva, quais os momentos mais importantes da sua vida e da sua trajetória profissional?

Daioner Romero: Um dos momentos mais importantes foi ter entrado na Cia Casa Forte e ali manter contato com expoentes da coreografia e da Dança Contemporânea. Foi-me muito inspirador. Nas aulas que participei no Espaço Ruth Rachou e na escola Penha de Souza, segmentei o meu gosto por uma dança cênica de qualidade. No Colégio Objetivo tive também uma experiência com o teatro, que me trouxe elementos interpretativos muito inspiradores e a convivência com atores e diretores profissionais. Naquela época fiz amizade com a atriz portuguesa Ruth Escobar  e, por seu intermédio, conheci outros atores como os da família Guarnieri.

Foi um período intenso. Lia um script teatral por semana e assistia a uma peça a cada 15 dias. Eram tempos de repressão, censura, os quais foram muito marcantes em minha na formação intelectual.

Ouvia muitas músicas censuradas  de Chico, Geraldo Vandré, Raul Seixas, Secos e Molhados, Taiguara, Johnny Alf, Gonzaguinha e outros. Escutava também os afro-sambas de Baden Pawell, Vinicius de Moraes. O Brasil criou muita massa crítica naquelas fases, vivíamos uma época de pouquíssima alienação. Nos centros acadêmicos e nos colégios havia postura e atitudes no ar, principalmente nas artes e no mercado editorial.

Kultafro:  Como foi a experiência de criar e liderar o Studio Dança Mundi?

Daioner Romero: O Studio Dança Mundi surgiu da necessidade de se desenvolver um espaço com liberdade para se trabalhar e estimular a arte, por meio de criação e abordagem diferenciadas, fora do padrão do que se oferece em um centro de expressão artística.

Dei aulas em escolas, associações, clubes, mas sempre me deparava com algum entrave burocrático ou alguma limitação para avançar com os meus projetos coreográficos e de didática. Por isso decidi criar um espaço. Analisei o que poderia oferecer ao mercado me baseando naquilo que ainda não existia, e como tornar essa casa agradável a todas às tribos da dança: do clássico ao hip hop; do afro ao sertanejo. Eu queria um local “plural e democrático”.

Outra dificuldade era a localização e tive a sorte de conseguir um imóvel adequado na Av. Ibirapuera, ao lado do Shopping. Foi um achado. Por fim, precisei encontrar um nome forte e que engloba todo o conceito do espaço: Studio Dança Mundi. Resumindo e sem nenhuma pretensão, é um local de estudo das danças do mundo. Estamos aqui a pouco mais de três anos e a cada mês consolidamos mais a nossa ideia de dança e de relação com todas as manifestações de arte, sem exceção.

Kultafro: Existe concorrência de outras escolas nesse bairro?

Daioner Romero: O Studio surgiu para preencher uma lacuna em Moema. Os estilos com os quais trabalhamos só eram encontrados na Vila Madalena ou em estúdios muito sofisticados, que praticavam preços elevados.

Nosso espaço apresenta valores justos, os quais permitem que as pessoas encontrem em nossa grade de aulas os estilos adequados ao gosto e ao bolso.

Kultafro:  Como as raízes negras influenciam o seu trabalho e a sua vida?

Daioner Romero: Minhas raízes negras só começaram a se manifestar na medida em que fui me descobrindo negro. Aos sete anos sofri meu primeiro booling e agressão física por ser negro, até então eu nem sabia qual era a minha cor, me via apenas como uma criança.

Aos dezessete percebi que, por ser negro, não tinha o direito de amar as meninas de minha escola, porque a minha aparência não se assemelhava os pop stars das bandas de rock. Sentia-me deslocado, infeliz nos relacionamentos que teimavam em não acontecer. Taxava-me de feio, sem chance. Contudo, percebi que na dança a cor da pele, a raça ou o sexo simplesmente não importava. Dançando vi que as intolerâncias eram menores e ser negro era uma qualidade.

Aos vinte e cinco entrei em um show de dança folclórica em que 90% do elenco era negro e lá ser negro era tudo de bom. A partir dessa experiência  comecei a usar minha genética a meu favor dando aulas, dançando, sendo exemplo para outros negros. Viajei, ministrei aulas, mostrei que este era um caminho, criei meus filhos com a dança.

Kultafro:  Como o trabalho do Studio Dança Mundi está estruturado e quais os projetos atuais e futuros?

Dainorer Romero: O Studio é um centro de arte interdisciplinar e plural. Nossos alunos praticam as mais variadas aulas e não permitimos que haja dentro do espaço separações, preconceitos que, às vezes, estão incutidos na mente das pessoas.

Oferecemos um espaço humanista, onde as pessoas são o mais importante, e não o capital, o dinheiro. Recursos são meios e não os fins pelos quais trabalhamos. Nas aulas, frisamos para os alunos os nomes dos intérpretes das músicas, a história da música, do artista ou do movimento musical que aquela música pertence ou pertenceu. Respeitamos a individualidade de alunos e de professores, e é esse comportamento que também esperamos de todos os frequentadores.

Em breve voltaremos as nossas energias para projetos que envolvem ações de Back Stage, de um espetáculo, com palco, palanque ou espaço cênico. Queremos que, no futuro, nosso aluno opte por estar no palco ou na coxia cuidando tecnicamente do suporte que apoia o espetáculo que será apresentado. Será o Back Stage dando suporte ao que merece ser destacado pela luz, pelo som e na cenografia. Estamos estudando como obter aporte financeiro para por a segunda perna de nosso projeto em ação.

Em médio prazo, pretendemos ampliar algo que já fazemos: o apoio a pessoas de menor renda, e lhes proporcionar bolsas para desenvolvimento artístico-cultural. Investimos na formação de talentos, trabalhando a melhora da autoestima. Estamos, também, planejando alternativas de captar recursos privados, público-privados ou públicos, para ampliar o investimento e proporcionar o acesso à cultura das pessoas menos favorecidas socioeconomicamente, mas também aquelas que têm uma situação financeira confortável só que, em certos casos, necessitam rever conceitos, princípios, valores e humanismo.

A nossa intensão nos próximos anos é fortalecer o relacionamento e o intercâmbio artístico nacional e internacional.

Kultafro:  Esse mundo da comunicação instantânea é mais democrático para o mundo da dança?

Daioner Romero: O mundo atual de comunicação instantânea é bom e não é, explico porque.

A Dança é uma arte oral, sempre foi transmitida através da lembrança dos mestres e das notações (símbolos que representam os movimentos). Hoje muita gente se apropria da obra intelectual e suada, por meio de cópia de vídeos em plataformas como o YouTube, Vimeo etc.

Não considero democratização roubar o fruto de trabalho dedicado e suado, a não ser que o artista o disponibilize livremente para ser visto. Da mesma maneira que existe a pirataria na música existe o plágio de conteúdo artístico das aulas e das coreografias.

Vejo como positivo a pesquisa da biografia dos artistas e de movimentos artísticos; o acesso à história que culminou em eventos que mudaram a curso da dança; a divulgação para que um trabalho se torne conhecido de maneira rápida, viral e ampla também é super-positivo. O estímulo da dança, nos dias de hoje, através das  mídias, também é importante, pois encoraja aquelas pessoas que sempre sonharam em dançar, e a iniciar essa atividade.

Com relação às redes sociais, este meio de comunicação muito dinâmico, pode colaborar para a dança e/ou para qualquer outro segmento. Mas, ao mesmo tempo, pode também denegrir e difamar.

Kultafro:  Como dizia o Caetano “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Qual o papel do dinheiro no mercado de produção cultural e em particular da dança, que se transforma a cada dia, numa velocidade estonteante?

Daioner Romero: A dança, a meu ver, ainda esta muito atrasada em comparação a outros centros do mundo, por falta de pesquisa e de investimento na formação de bailarinos e coreógrafos. Falta maior densidade nos argumentos coreográficos; às vezes começa bem, mas no meio a história desanda, perde consistência. Precisamos de mais pesquisa de movimento, figurino, cenografia.

Acredito que precisamos criar uma linguagem mais brasileira de dança. Não conseguimos ainda uma bossa nova da dança, que nos identifique no mundo.

No que diz respeito ao capital, no mercado de produção cultural ele está muitas vezes circunspecto a grupos restritos de pessoas, basta que apresentem uma certa estabilidade e que se mantenham atuantes por alguns anos e as verbas são obtidas para a produção de projetos, que vão desde projetos mais enxutos a grandes eventos de entretenimento.

Empresários e pessoas de uma faixa mais intelectualizada da população sempre obtém estes incentivos. Há uma indústria de projetos culturais, uma vez descoberta a formula o resultado será sempre o mesmo.

É necessária a democratização na distribuição destes recursos, que são pagos por todos nós. Penso que os projetos deveriam ser pré-escolhidos por área, simples ou sofisticados, e todos se submeteriam a um sorteio, e para que não houvesse injustiça, se poderia fazer uma repescagem para se prospectar projetos de notória utilidade ou criatividade escolhidos por uma comissão de produtores culturais, também sorteados. Na minha visão, desta forma haveria chance mais igual para todos.

Kultafro: Qual legado você quer deixar para a sociedade?

Daioner Romero: O maior legado é que o Studio Dança Mundi se torne, no futuro, uma referência dentro do nosso bairro, Moema. Ser um dia mencionado como uma das escolas mais importantes da cidade de São Paulo e ter parcerias internacionais nos quatro cantos do mundo. Desejo que o Studio indique caminhos novos para às velhas e viciadas formas de se ver a arte, pois o espaço não é só dança é, sim, um local de desenvolvimento da arte. Por fim objetivamos que o espaço proporcione alegria às pessoas, e a certeza de que aqui se encontrarão meios para o desenvolvimento artístico e de um senso estético que saiba ver todas as manifestações das artes com respeito. E o mais importante: humanismo na forma de se olhar o outro, compaixão ao se falar com um aluno; ajudar, desenvolver e servir. O Dança Mundi não carrega meu nome de propósito, pois quero que perdure seu nome próprio. A arte é imaterial, mas o valor do Studio será sua transcendência, os valores que plantaremos dentro de cada aluno, cada amigo e cada simpatizante de nosso projeto.

Kultafro: Na sua opinião, como a Kultafro pode ser uma plataforma de colaboração diversa, que abra espaço para os produtores de cultura negra?

Daioner Romero: Mapear os produtores de cultura negra bairro a bairro, identificar aqueles que estão fazendo algo interessante pela cultura do seu território ou da sua localidade, ou até pela sociedade em geral. Tem muita gente boa por ai, desconhecida e que não esta preocupada com notoriedade; de catador de papel com consciência eco responsável a uma mãe que enfrente o narcotráfico em busca de melhorias para uma comunidade de periferia. Todos que ajudem a sociedade a ser melhor mais humana, mais culta, e mais sadia são, na minha visão, transformadores culturais movidos pela preocupação com o seu entorno e com todas as pessoas.

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