Kultafro entrevista Dr.Julius Garvey,em Salvador

Por Rosyane Silva

  “Precisamos de liberdade mental”

Julius Garvey

Na sua primeira vez ao pais,Dr Julius Garvey  conheceu o Rio de Janeiro e agora em solos Soteropolitanos, foi recebido no auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, no Complexo Cultural dos Barris, lotado com varias gerações, diferentes olhares e muita ansiedade . Sorridente, simpático distribuindo fortes apertos de mãos como formas de  retribuir  as expectativas das pessoas que lá estavam . Ele carrega a importante missão de perpetuar os pensamentos de seu pai Marcus Garvey.

 

Julius Garvey /foto Rosyane Silva

 

O jamaicano Marcus Garvey, foi um dos principais ativistas na luta nacionalista pela “redenção” dos negros na diáspora africana, propondo aos africanos e descendentes espalhados pelo mundo em síntese uma ” volta à Àfrica”. Inspirou Bob Marley em suas canções de liberdade, pensamentos pela União Africana e como pioneiro é considerado o “Pai do pan-africanismo”. Esses ideais continuam perpetuados e tendo voz com Dr Julius, que no encontro transmitiu suas idéias com solenidade, voz firme, sabedoria e muito vigor. Encantou-se com a Bahia e propôs aumentar essas relações com os brasileiros, quebrar as barreiras existentes entre a África e o Brasil: ”Não queremos fronteiras, nós temos a mesma história”.

Tarry Cristina do Intituto Steve Biko,Geri Augusto – Universidade Brown
dos Estados Unidos,Dr Julius Garvey,Paulo Rogério do Instituto Mídia Étnica e Alisson Moses da Rica Diáspora.Foto Rosyane Silva

 

Dr Julius, não se furtou em responder a qualquer pergunta da plateia, falou sobre as últimos fatos políticos nos EUA, como a re-eleição  de Barack Obama,  sua importância  para os afro-americanos, e principalmente o recado histórico dado  da América para os africanos  espalhados pelo planeta. Destacou “que uma coisa é a eleição de Obama, outra coisa é o papel da América enquanto potência econômica e política nas relações com o mundo atual”. Acredita que mesmo com Obama o sistema continua marginalizando o mundo. Nesse tema afirmou “..Nenhum presidente dos EUA independente da sua  cor vai mudar esse sistema”.Enfatizou ainda sobre os problemas de desemprego, que afetam as famílias dos afro-americanos ,algo perfeitamente parecido com os problemas dos afro –brasileiros. A falta de emprego influencia diretamente a marginalidade e os altos índices de criminalidade.

 

Sobre o Pan-africanismo, Dr.Julius faz algumas  observações onde discorda da simplificação dita de que o o movimento de Marcus Garvey, como sendo um projeto que defende o retorno dos africanos e descendente à África. Trata-se de uma falsa percepção. Para Garvey, onde tiver o povo africano, alí naquele lugar será  a África. Portanto torna-se  importante enraizar-se no seu território. Isso não significa voltar ao continente. Todos nós temos que voltar á África mentalmente conclui. Explica que os africanos sempre trabalharam e fizeram os outros enriquecerem, e que agora  faz-se necessário, planos de ação para que os africanos  desenvolverem-se também. Dr Julius afirma  que o mais importante passo é libertar-se , romper com escravatura mental. Organizar os pensamentos, desenvolver a economia e não esquecer de cuidar do lado espiritual, “só assim construiremos  uma nova realidade para o povo negro”.

Com certeza todos saíram do auditório, cheios de esperanças e renovados para as muitas lutas, que ainda estão por vir. Lembrando sempre do incentivo de voltar os pensamentos à África, enfatiza Garvey, “Precisamos de liberdade mental, preparar-nos para os empecilhos, conhecer o universo, as sociedade para lidar com as pessoas” .

 

“Conheça seu potencial e suas fragilidades, de modo que você procure maximizar suas forças, e minimizar suas fraquezas…” Dr. Julius Garvey.

Meire Oliveira (jornal A tarde) Rosyane Silva (kultafro) Paulo Rogerio (Correio Nago) Foto:Marcio Luiz-Coletivo Libertai

Leia trechos da entrevista feita pela kultafro

Kultafro: Dr. Julius como os africanos estão frente aos novos impactos das relações com as grandes potências econômicas e geopolíticas?

Dr Julius Garvey: A África precisa da assistência de países externos, ajudas internas. Mas o banco mundial fala que 5,8 bilhões de dólares são mandados anualmente  para o continente todos os anos. Isso é mais que o investimento direto estrangeiro na África. Os africanos precisam buscar de outros parceiros, não podem olhar só pra Europa como parceira. Isso é próprio da direção do Pan-africanismo hoje.

Kultafro: Dr. Julius, Quais as reflexões que faz hoje sobre um passado intenso que o Sr viveu na militância com seu pai, levando em conta a simbologia a referencia que ele representa. Quais os novos caminhos hoje?

Dr Julius Garvey: As mudanças são bem superficiais, muitos dos nossos países no Caribe, na África são independentes temos uma bandeira, temos um hino nacional. Nós não controlamos nossos recursos e nossas economias e nem nossos sistemas educacionais. Em lugares como os EUA onde nós somos minoria e no Brasil agora vocês são agora maioria, nós não temos a possibilidade de influenciar o sistema ,construir um sistema que funcione para nós e para os outros. O próximo passo é controlar nossos recursos, nossos bens e também a nossa própria educação. O problema principal é que nós ainda temos a mente colonial.

Kultafro: Dr.Julius, como o Sr enxerga o Brasil dentro das suas preocupações e motivações no Pan-africanismo?

Dr Julius Garvey: O Brasil é extremamente importante por conta dos 100 milhões de afro -brasileiros, onde  constitui   o segundo maior  pais de descendentes africanos depois da Nigéria. É muito importante que os afro- brasileiros entendam esse conceito e importância.

 

Colaboração: Luiz Paulo Lima e Paulo Rogério\ Correio Nagô (interprete)

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