Entre Micheaux e BulBul, o negro por um cinema independente.

Por Luiz Paulo Lima

É com relativa frequência que verificamos nos dias de hoje, diferentemente de um passado recente, sucessivas mostras e lançamentos de produções de cinema independente, onde atrizes, atores, produtores (as) e diretores (as) negros (as) como protagonistas, deram  ao mundo audiovisual uma sensação de inclusão democrática, nessa fantástica linguagem conhecida como a sétima das artes.

 

Oscar Micheaux

A cidade de São Paulo é uma prova disso, demonstrou com  o sucesso de público no Lançamento do filme “Raça” de Joelzito Araújo. A metrópole paulista  também  acolheu   retrospectivas como; Oscar Micheaux: O negro e a segregação racial, realizada no CCBB, com a curadoria de Paulo Ricardo G. de Almeida, onde podemos assistir vinte e cinco do total em torno de quarenta filmes produzidas pelo cineasta entre os anos de 1919 e 1948. Cabe um destaque  relevante,  o cineasta produziu todas essas obras no período pleno de segregação racial nos EUA.

Micheaux, polêmico, empreendedor nato, ficou conhecido como pioneiro no gênero ao escrever, produzir, roteirizar, dirigir e distribuir “The Homesteader”, em 1919, primeiro longa-metragem afro-americano. A importância desse filme transpôs as telas, tornando-se num fato politico, econômico, social e cultural naquele período.

Para confirmar suas intenções como cineasta independente, recusou o assédio de  Jorge P. Johnson, gerente da Lincoln Motion Picture Company,,uma empresa “trustes” de produtores e distribuidores  cinematográficos liderada pela Edson Studios, de propriedade de Thomaz Edson, que a partir de 1908 se associaram para controlar por completo da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Johnson, queria produzir The Homesteader a todo custo, não porque adorava os afrodescendentes, e sim porque o livro com o mesmo título foi um sucesso literário e ao mesmo tempo inibir iniciativas concorrentes, fora de controle para o setor. Micheaux exigiu condições para as filmagens em Los Angeles: a supervisão total da produção, gravar com oito rolos de filme em vez de três como era de praxe e  defendeu a tese da necessidade de abordar nos conteúdos os relacionamentos inter-raciais.

Para Lincoln essas condições eram inaceitáveis, fazendo com que o autor criasse a sua própria produtora, a Micheux Film and Books Company, onde o cineasta fez de tudo e mais um pouco para produzir seus filmes. Vendia ações de sua companhia para investidores da comunidade afro-americana, negociava com os donos dos cinemas parte do material filmado, pedia dinheiro para concluir e posteriormente entregava-os  concluídos, e não media esforços para mostrar durantes anos a fio, cidade por cidade, suas obras até desfarelar-se pelo desgaste de exibição.

 

Patricia Durães,Paola Prandini,Carlos Nascimbeni e Luiz Paulo lima

Outro momento de encontros com a cinematografia na cidade de São Paulo, ocorreu no final de semana passado, onde tive o prazer de mediar as conversas  sobre o Filme Mulheres Africanas: a rede invisível, do  diretor Carlos Nascimbeni. Evento produzido pela Paola Prandini da Afroeducação com a parceria do Espaço Itaú de Cinema.

Na ocasião, o diretor pode revelar aspectos  importantes referentes a produção do filme, assinado pela CineVideo, onde  explicou os desafios encontrados ao tratar de temas tabus como as “Áfricas”, pela primeira vez.   Mulheres Africanasa rede invisível, é um filme carregado de sensibilidades antes de tudo.A produção executiva tomou a inciativa correta de escolher produtores locais, onde seus conhecimentos sustentaram com qualidade  teórica o roteiro, que segundo o diretor foi construído pari-passo no dia -dia das filmagens.Outro momento de encontros com a cinematografia na cidade de São Paulo, ocorreu no final de semana passado, onde tive o prazer de mediar as conversas  sobre o Filme Mulheres Africanas: a rede invisível, do  diretor Carlos Nascimbeni. Evento produzido pela Paola Prandini da Afroeducação com a parceria do Espaço Itaú de Cinema.

Diretor Carlos Nascimbeni e o mediador Luiz Paulo Lima

Complementando as personagens ,a liberiana Leymah Gbwee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz  em 2011, a Tanzaniana Mama Sara Masari, empresária de grande prestígio não só nos seu país, Luiza Diogo Ex- Primeira Ministra de Moçambique e a escritora sul-africana  Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1991.As grandes estrelas do documentário, foram as diferentes mulheres.africanas, que tiveram nas suas trajetórias de vidas, lutas e vitórias para além do recorte de gênero, dignificaram a condição humana como valor maior. Experiências de vidas por cinco mulheres como a moçambicana Graça Machel, além de estar  Ministra da Cultura e Desenvolvimento, onde desenvolve seu papel funcional e institucional, atua em projetos sociais ligados a condição vida das mulheres africanas e casada com o eterno Presidente Nelson Mandela.

Paola Prandini

Fora esses aspectos significativos de conteúdo, o filme traz soluções como linguagem, importantes do ponto de vista da sua construção narrativa. O documentário apresenta pontualmente a figura da narradora, um belo texto muito bem conduzida pela Zezé Motta, nossa grande atriz e ativista afro-brasileira. Outros destaques são os planos e enquadramentos, panorâmicas e silêncios como na música, compondo os aspectos estéticos muitas vezes ausentes e desconsiderados por outros autores nesse gênero cinematográfico.

Para fechar os trabalhos, um convite para assistirem a Mostra Black Brasil com a Curadoria do diretor e produtor JeffersonD,  como destaque do 24º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

Zòzimo Bul Bul por Luiz Paulo Lima

O grande homenageado este ano será Zózimo BulBul. Pioneiro, polêmico, ator,diretor e produtor, que construiu parte importante da sua biografia pautada na luta pelos direitos civis, através da construção simbólica de representação da imagem do negro no teatro e no audiovisual. Imperdível!!!

 

Fotos: André Diogo

Serviços

 

Black Brasil, mostra especial em homenagem ao Zózimo Bulbul e seu cinema negro.

Dia 25\08 ás 21hs 

Local: Espaço Itaú de cinema (Augusta)

Dia 28\08 às 15hs

Local: Cine Olido

Dia 30\08 às 15hs

Local: Centro Cultural São Paulo

Entrada Gratuita

www.kinoforum.org/curtas

Confira aqui os filmes da programação: http://www.kinoforum.org.br/curtas/2013/programacao-programas-especiais

Curadoria: Jeferson De e colaboração equipe Kinoforum. — with Renata MartinsLeonardo Mecchi,William HinestrosaZoe OlivottoBeth Sá Freire,Janayna AlbinoIda FeldmanPaloma MoreiraAline Bertotti and Anne Fryszman.

 

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