Tem samba no Afrobeat

Por Liliane Braga e

Vanessa Soares

Entrevista com Tony Oladipo Allen, co-fundador do gênero musical-ativista afrobeat

Tonny Allen por Arthur Roots

Dois dias após se apresentar na Chopperia do SESC Pompeia (SP), Tony Oladipo Allen nos recebeu para uma conversa de quase uma hora. Era 25 de junho de 2013 e, naquela mesma noite, ele ainda tocaria com o Metá Metá (https://pt-br.facebook.com/pages/Met%C3%A1-Met%C3%A1-oficial/246886475364117).

Vanessa Soares foi a mentora da proposta desta conversa com o músico. Quando chegamos para a entrevista, Allen ralhou com Vanessa: “por que você não foi ao camarim? Eu acenei para você quando o show acabou, sinalizando para me acompanhar!” Queria agradecê-la por ter dançado no show.

Generosidade desse grande artista proveniente de uma cultura muito presente no Brasil: o iorubá, grupo etnolinguístico proveniente dos sudaneses e compreendido nos territórios de Nigéria, Togo e República do Benin, na costa oriental da África. E é na língua de seu povo que Allen prefere compor. “Iorubá é a minha origem. Mas a língua não importa. A música é uma língua só”, conclui.

No entanto, a melodia em iorubá contribui para o “encantamento hipnótico” do afrobeat de que nos fala Carlos Moore em seu livro “Fela, esta vida puta” (Editora Nandyala, 2011). Por serem as línguas africanas de natureza rítmica e prosódica, ao serem associadas à melodia do canto, aumentam seu valor. Uma das características mais típicas do canto africano, mencionada por Ronilda Iyakemi Ribeiro em seu livro “Alma Africana no Brasil – Os Iorubás” (Ed. Oduduwa, 1996), é a repetição incessante de uma frase, geralmente curta e simples – também conhecida como melopéia, sobre tema livre, no qual ao coro se seguem os solos e a estes novamente o coro.

Tonny Allen também mostrou seu posicionamento político-social em nossa conversa: relacionou o período do ataque de militares nigerianos à comuna de Kalakuta – idealizada por Fela Anikulapo Kuti (1938/1997) para receber todos os africanos que estivessem fugindo de perseguição de ordem político-ideológica – à coibição dos protestos que tomaram as ruas do Brasil no mês de junho.

Metá Metá com Tony Allen por Arthur Roots

Aos 73 anos, o baterista autodidata é – ao lado de Fela Kuti -, co-fundador do “quarentão” afrobeat, gênero que mistura música de origem iorubá, freejazz, highlife do oeste africano e funk a harmonias e vocais tradicionais africanos. Mesmo sendo um veterano de marca maior, Tony Allen mostra-se totalmente aberto a compartilhar com músicos da nova cena (leia-se: independente).  “A música é a minha missão. Eu nunca fico satisfeito e ainda estou aprendendo com outros”, nas palavras do próprio. Viajando com a banda reduzida, no show do SESC Pompeia ele contou com o apoio de músicos brasileiros: Thiago França, Thiago Queiroz e Leandro Joaquim (estes dois últimos, integrantes da Abayomi Afrobeat Orquestra). O “intercâmbio” passou ainda pela participação de Allen no (já mencionado) show do Metá Metá no Serralheria, em que ele acompanhou a execução das faixas do álbum que leva o nome do trio.

Empresariado por Eric Trosset, da francesa Comet (http://afrocomet.blogspot.com.br/), da qual é proprietário e A&R  – na indústria musical, “Artistas & Repertório” diz respeito à divisão das gravadoras responsável por observar, recrutar e desenvolver talentos musicais -, Allen nem sempre teve quem administrasse sua carreira. Na chegada à França, na década de 70, seu trabalho era pouco conhecido. Teve que “provar o seu talento” simultaneamente ao enfrentamento do racismo: “Eu sabia que tinha algo a dar. Eu os convenci disso. Procurava não olhar para o racismo e a discriminação, que estão aí. Sempre está”.

Músicos que acompanharam Tony Allen – por Arthur Roots

Generoso, apesar de despreparado para ser filmado ou fotografado durante a entrevista, ele nos recebeu no apartamento do hotel para a conversa, que foi registrada e traduzida por Liliane Braga no método “old school” papel-e-caneta.

Kultafro: O autor nigeriano Esiaba Irobi fala que “o corpo possui uma memória, podendo ser o lócus de resistência através da performance”, referindo-se ao que os africanos trouxeram para a diáspora com a escravidão. Você concorda?

Tony Allen: O Brasil é permeado do iorubá. A América do Sul, Cuba… Os escravos trouxeram [suas culturas], essa é a razão. Vá à Bahia: você vê ainda mais da tradição iorubá lá. Eles falam iorubá antigo, que os iorubanos na África não entenderiam hoje em dia, porque ninguém fala daquele jeito atualmente.

Kultafro: Como é o seu contato com músicos da cena nigeriana?

Tony Allen: Eu sempre volto à Nigéria para gravar. Gravei ao menos três álbuns lá. O último álbum foi “Secret Agent” (2009). Mas também gravei lá o “Lagos No Shaking” (2007).  Hoje a cena lá está diferente. Eles querem fazer dinheiro rápido. Eles não mais se dedicam à música feita com instrumentos, mas com computadores. É como nos jogos-de-azar: fazem sucesso rápido e, depois, afundam. E todos os clubes noturnos viraram igrejas evangélicas.

Kultafro: Você estava na República de Kalakuta – casa comunitária criada por Fela Kuti –, em Lagos, quando, em 1977, houve o ataque narrado por Fela no livro escrito por Carlos Moore? O que representou aquele momento pra você?

Tony Allen: Kalakuta representava as pessoas se manifestando, como agora (referindo-se aos protestos ocorridos em São Paulo durante o mês de junho passado). O sistema estava caminhando para a demência, as pessoas estavam tomando consciência da estupidez do sistema e reagiu. Mas Fela era o único atacando o sistema diretamente. E eles pensaram “temos que fazer alguma coisa”, e decidiram eliminar a fonte, invadindo Kalakuta para destruí-la. Foi um massacre. Passei três dias na cadeia porque estava na casa de Fela  naquele dia. Hoje a transmissão da informação é mais rápida, há internet. Na África, o problema é que temos sistemas falidos por toda a parte. As pessoas do poder na África não agem como chefes de estado, mas como indivíduos do sistema capitalista. Não há incentivo à educação. Como garantir a erradicação da pobreza então? Todos os recursos que desenvolveram o Ocidente foram retirados do continente africano. Ninguém tem que culpar ninguém por nada. O problema somos nós. Porque todos os recursos [para o desenvolvimento da África] estão lá.

Kultafro: Por que você deixou a Nigéria?

Tony Allen: Minha própria vida estava ficando afetada. O exército e a polícia invadiam os clubes… Começou a haver muito roubo e muito crime.

Kultafro: E o racismo na Europa quando se mudou para lá, como foi?

Tony Allen: Eu não ligava. Se você está na Europa como um negro vindo da África, tem que se integrar ao estilo deles de viver. Hoje tudo mudou. Mas eu só segui os meus passos.

Kultafro: Qual a sua opinião sobre a cena musical brasileira atual?

Eles estão tentando assimilar o afrobeat rapidamente – nota por nota, beat por beat. O afrobeat é um movimento diferente. Estão trazendo o samba ao encontro dele. Mas tem samba dentro do afrobeat! A pergunta é a maneira como isso é oferecido. O homem branco é diferente da gente, que somos a raiz do ritmo. Eu estava tocando bateria em uma escola de percussão de Salvador onde havia muitos estudantes: me fez lembrar da África, da minha própria tradição.  Vi onde as tradições são relacionadas umas às outras, porque veio das mesmas raízes. Lá na França, ouvi falar de um grupo que tocava afrobeat do Brasil e fui ver. Era Criolo e banda. Pensei “é música brasileira mais afrobeat”. É muito único. E um dos músicos da banda daquele show toca com a gente agora, o Thiago França.

Kultafro: Fale para a gente sobre Fela Kuti.

Tony Allen: Não dá pra resumir. Leia minha biografia que será lançada em setembro na França. (Nota da redação: “Tony Allen: Master Drummer of Afrobeat”, em co-autoria com Michael E. Veal).

Para novembro de 2013, está confirmada a volta do artista ao Brasil para apresentação no festival “Black to Black” (RJ), onde vai tocar com Criolo. A vinda a São Paulo ainda depende de confirmação.

Comments: 1

  • Erica julho 29, 2013

    Muito legal a matéria me fez (re)pensar porque ainda não havia lido de Carlos Moore e tantas outras coisas.
    Att Érica

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