RAÇA – um filme sobre a igualdade,17\05 em SP

Por Leno F.Silva

Outras Impressões da Terça

Nas últimas semanas estive envolvido com o lançamento de Raça – um filme sobre a igualdade, que estreará em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, na próxima sexta-feira, 17 de maio. Nesse período participei de dois debates, um promovido pela Folha de S. Paulo e outro, com professores, organizado pela Afroeducação.

Em ambos os encontros a recepção do público foi muito boa e as manifestações demonstraram que as histórias de Dona Miúda dos Santos, que luta com o seu povo para legalizar o Quilombo Linharinho, no Espírito Santo; de Netinho de Paula, à frente da criação da TV da Gente, a primeira emissora televisiva dirigida por um negro e que pretendia dar visibilidade à maioria da população brasileira que pouquíssimo espaço ocupa nos meios de comunicação; e Paulo Paim, o único senador negro que batalhou por mais de dez anos para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial.


Com sensibilidade, uma bela fotografia e uma edição precisa, o documentário se constitui como um importante instrumento de ação para que o Brasil reflita sobre os caminhos para a construção de uma democracia racial de fato, em que todos os cidadãos tenham condições de viver de maneira justa e digna, e banindo o racismo velado ou explícito da nossa sociedade.

Na última segunda-feira, dia 13 de maio, na pré-estreia em São Paulo, o Cine Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, estava lotado, e contou com as presenças de Dona Miúda e do Netinho. O senador Paulo Paim, que havia confirmado presença, não pode comparecer, mas o evento reuniu dezenas de lideranças dos movimentos negros e tantos outros simpatizantes dessa luta que é de responsabilidade de todos os brasileiros.

Agora, o desafio é lotar as salas de cinema e estimular o público a debater as questões costuradas tão bem pela dupla formada por Joel Zito Araújo e Megan Mylan, diretores da fita.

 

Raça chega à telona para inspirar cada um de nós e joga luz num tema que, historicamente, o país vem fazendo questão de não enfrentar com a coragem e a prioridade necessárias. Sim, somos um país diverso, miscigenado e só nos transformaremos numa grande nação quando acabarmos com o racismo e as desigualdades sociais. E mais: a renda da bilheteria do filme será destinada ao Fundo Baobá, entidade que se dedica em apoiar iniciativas que promovam a igualdade racial. Vamos nessa? Por aqui, fico. Até a próxima.

Ficha técnica:

Produção: Principe Productions e Casa de Criação

Diretores: Joel Zito Araújo e Megan Mylan

Duração: 104 minutos

Serviço:

Assista, divulgue e convide seus amigos para ver Raça – um filme sobre a igualdade.Estréia dia 17 de maio no Espaço Itaú de cinema.

Mais informações: www.racafilme.com e www.facebook.com/racafilme/info\

Comments: 1

  • Abilio Ferreira maio 16, 2013

    Realidade da ficção da realidade

    “A literatura consiste em dar à trama da vida uma lógica que não existe. Na minha opinião, a vida não tem trama, nós é que a acrescentamos, quando inventamos a literatura.” A fala é do professor Morante, personagem do romance Doutor Pasavento, sexto livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, lançado no Brasil em 2010.

    A provocadora afirmação do personagem voltou a tomar de assalto os meus pensamentos no último dia 13 de maio, por ocasião da exibição, em pré-estreia para cerca de 200 convidados, em São Paulo, de Raça, documentário dirigido pelo cineasta mineiro/baiano Joel Zito Araújo e por sua colega norte-americana Megan Mylan. Concordo, ao menos em parte, com o professor Morante, mas o filme deixou em mim uma forte impressão de que o cinema, tal como a literatura, tem essa função de despertar no nosso imaginário as tramas próprias das narrativas de ficção, que vamos tecendo ao viver a vida real.

    Ouso dizer que, ao estabelecer um paralelo harmônico entre os momentos cruciais de três trajetórias distintas – a de Netinho de Paula, atual secretário municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, a de Dona Miúda dos Santos, líder de uma comunidade quilombola no Espírito Santo, e a do político gaúcho Paulo Paim, único negro a ocupar atualmente uma cadeira no Senado da República –, o filme nos chama a atenção para a hipótese de que talvez seja irrelevante distinguir a realidade da ficção, ou a ficção da realidade, importando mais o lugar social e a consciência de linguagem do sujeito narrador que, assim, “inventa” mundos mais ou menos diversos e libertários.

    Que o digam os convidados presentes na pré-estreia, a maioria mulheres e homens que, a partir do final da década de 1970, ajudaram a preparar as condições para que pudessem ocorrer os fatos narrados na tela – a ascensão de Netinho empunhando a bandeira racial, o reconhecimento constitucional dos territórios quilombolas e a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial –, não antes de desconstruir o mito da democracia racial brasileira, ficção tida por muitos, ainda hoje, como realidade indiscutível.

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