Técnico de Futebol “preto”. Aonde?

Por Redação Kultafro,

Por Instituto Mídia Étnica em 7 abril 2013 às 10:27

Redação Correio Nagô* – “Me desculpe, você é preto”. Este foi o título de uma matéria recente da revista Placar que fez uma reflexão sobre a quantidade de técnicos negros no futebol brasileiro. O texto trouxe desabafos de treinadores negros, cada vez mais raros no alto escalão do futebol brasileiro, e teve como personagem principal Lula Pereira, ex-técnico do Bahia, e que disse ter ouvido de cartolas a frase que serviu como chamada da reportagem. Pegando o gancho, uma reportagem publicada pelo iBahia Esportes deu continuidade à discussão e entrevistou profissionais atuantes no futebol baiano, desde dirigentes até treinadores.

O primeiro a falar foi Paulo Isidoro, ex-meia-atacante da dupla Ba-Vi e atualmente auxiliar técnico do Ypiranga. Avançado no curso de formação de treinadores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o ex-atleta revelou incômodo com a falta de discussão sobre o tema.

“Eu esperava tanto que alguém falasse isso comigo, é algo que me incomoda muito. O futebol brasileiro sempre teve vários destaques negros em campo, o nosso símbolo é negro (Pelé), mas fora de campo isso não acontece. Não sei se é preconceito, má qualificação… Acho que é um pouco de cada, acho que se você se qualificar bem, se você buscar aquilo que você quer, acho que você alcança. Mas às vezes é estranho. Olha o Andrade, como é o cara é campeão brasileiro pelo Flamengo, time de repercussão mundial, e depois não consegue trabalho?”, destacou ao IBahia Espostes o ex-atleta.

Primeiro técnico negro campeão brasileiro, Andrade assumiu o Flamengo de 2009 de forma provisória, mas foi efetivado no cargo e conquistou o hexa nacional pelo clube. Porém, acabou demitido cinco meses depois com 73% de aproveitamento. Após ficar sem emprego durante meses em 2010, desabafou em entrevista à TV Globo. “Uns dizem que é por causa do meu vínculo com o Flamengo e outros falam de preconceito. Não existe treinador negro trabalhando na Série A. Alguns amigos me dizem que não estou trabalhando por causa da minha cor. Mas não quero acreditar nisso”, comentou na época. De lá para cá, ele só comandou Brasiliense, Paysandu e Boa Vista-RJ.

“Andrade não foi o escolhido do Flamengo. Foi um acaso, uma solução temporária. Só assim que os técnicos negros têm chance”, opinou Lula Pereira à Placar. Ele, que comandou o Bahia em 2003 e 2006, esteve à frente do Rubro-negro carioca em 2002 e está sem clube desde que saiu do Ceará no ano passado. Ao término das Séries A e B do Brasileiro em 2012, por exemplo, apenas um entre os 40 técnicos era negro: Anderson Silva, interino do Ceará no fim de temporada.

“Vivemos numa sociedade preconceituosa, de uma falsa democracia. Prega-se um moralismo imenso, mas as atitudes são quase nada. E não seria de se estranhar isso. Acho coincidência demais. A gente carrega isso de goleiros, de que goleiro negro no Brasil não dá. Criou-se uma cultura no Brasil desde o Barbosa (goleiro da Seleção de 1950). Penso que seja realmente uma forma de preconceito. Não é possível que tantos jogadores com qualidade não tenham vingado como técnicos pelo simples fato de serem negros”, afirmou à reportagem Janilson Brito, comandante do Juazeiro, segundo melhor time da primeira fase do Baianão 2013.

Mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Henrique Sena, que defendeu a dissertação “Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador, 1901 -1924”, fez uma análise do ponto de vista histórico. “Há uma desigualdade na qual os negros apenas assumem a posição quase que unicamente como jogadores, enquanto que as elites brancas, que ainda são os que comandam o futebol do ponto de vista institucional (dirigem e presidem clubes, associações e federações), assumem as posições intelectualmente privilegiadas. Vale lembrar que a inexistência de negros dirigindo ou treinando clubes de futebol continua a ser legitimada por resquícios de um racismo científico no qual os negros apenas possuem virtudes físicas e corporais como força, velocidade, enquanto que as habilidades do intelecto eram naturalmente associadas à raça branca”.

*Com informações do iBahia Esportes

Fonte

PORTAL CORREIO NAGÔ

 

Comments: 1

  • Eginaldo Marcos Honorio setembro 30, 2013

    Excelente matéria.

    Já tive oportunidade de questionar, inclusive as emissoras de televisão que, nos programas esportivos, todos os comentaristas são brancos e, no mais das vezes, mulheres e loiras ! ! !

    Tanto se apregoa que o Brasil é o País do Futebol e que os melhores jogadores são brasileiros e negros.

    Pois bem: se assim o é indaga-se:

    1) Por que não temos técnicos negros ?
    2) Por que os comentaristas de futebol não são negros?

    Considerando que são bons jogadores, obviamente conhecem toda a técnica, regras; o que pode e o que não pode ser feito em uma quadra ou campo; portanto com perfeitas condições para responder tecnicamente e até pela direção de futebol, todavia quando essas oportunidades surgem não são concedidas a eles !

    Se sabem jogar, saberão, com toda segurança, dirigir, comentar e exercer a função de técnico. ÓBVIO!

    Qual conclusão que se extrai disso:
    NÃO SÃO CONVOCADOS PORQUE NEGROS!
    SÓ PODE SER ISSO!
    NÃO VEJO OUTRA EXPLICAÇÃO LÓGICA.

    O que aconteceu com o Andrade deixa transparecer que seja isso !

    Esse maldoso comportamento deveria ser melhor investigado e ao encontrar elementos/dados/indícios de discriminação racial que as medidas judiciais sejam adotadas com muita energia.

    EGINALDO MARCOS HONORIO (advogado)
    eginaldo.honorio@terra.com.br

    Reply

Leave A Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *