Filó, multi-faces da mulher negra contemporânea

Por Leno F.Silva

 

Filó Silva é produra de vídeo e de programas para TV e documentários. Canta no coral da USP XI de Agosto, faz aula de canto e atualmente prepara repertório para apresentação solo, com banda. Além disso pratica atividade física, participa da Associação de Moradores do Bairro da Aclimação, é casada com Guilherme, tem um cão salsicha, chamado Haroldo; dedica-se à família, ao trabalho, aos amigos – quando tem tempo -, e está envolvida com várias atividades.

Kultafro: Fale um pouco e você: onde nasceu, cresceu, estudou; e de sua família: qual a origem, desde quando estão em São Paulo e qual a relação com a diversidade desta metrópole?

Filó Silva: Nascida e criada em São Paulo, venho de uma família menos abastada, minha mãe se separou do meu pai, que era alcoólatra, quando eu tinha 13 anos e deu o maior duro para criar a mim e ao meu irmão – Antonio. Nossa vida nunca foi fácil… negro e pobre dificilmente tem vez no Brasil. Aprendi com a minha mãe que estudar sempre foi e será muito importante. E que conhecimento não é tirado da pessoa, que com conhecimento a pessoa consegue alcançar seus objetivos.

Minha mãe, quando se separou do meu pai, teve que se esforçar muito para criar os filhos, terminou o segundo grau, trabalhou como funcionária pública. Até se aposentar foi secretária em escola pública estadual. Mesmo hoje, depois de vários anos, quando olho para trás percebo que minha história é uma história de vida para algumas pessoas da minha família. Meus sobrinhos, Vinicius e Ana Carolina, já perceberam pelo exemplo da tia que a vida não é fácil. Vinicius desde cedo compete como atleta de natação, faz Faculdade de Educação Física como bolsista atleta e está estagiando no Clube Pinheiros.

Ana Carolina, ex-atleta de natação, está finalizando o segundo grau (normal e técnico), quer ser advogada pelo Largo São Francisco. Mas, nem tudo são flores na minha família toda. Apenas três concluíram Faculdade e apenas um tem pós doutorado. Percebo que este é um trabalho de formiguinha, por isso sou tão insistente com os jovens para que estudem e uso muito meu exemplo.

São Paulo não para. Cresce desordenadamente.  Minha relação com a cidade é muito forte. Quando tive oportunidade de sair de São Paulo, não fui. Sabe por que? Eu tive um convite para trabalhar e estudar nos USA. Tentei por várias vezes tirar o visto, sempre voltava para casa com as mãos abanando por conta de um novo documento. Na última visita passei pela entrevista com um cônsul e ele me falou na cara dura que não iria me dar o visto por eu ser negra, bonita e solteira, exatamente por estes motivos não consegui o visto na época. Isso foi em meados de 1996. Na época era mais difícil conseguir visto, foi uma forma velada de preconceito? Claro que foi.

A cidade oferece tudo o que você precisa, comida boa tem, atividade física tem, diversão e arte tem também,  enfim, você pode sair a qualquer hora do dia ou da noite e encontrar o quiser. É uma cidade acolhedora, apesar da violência, mas, violência temos em todos os lugares. São Paulo não para, essa cidade só cresce.

Kultafro: Como você construiu (e vem construindo) a sua carreira e a sua trajetória profissional?

FilóSilva: Estudei teatro na adolescência, no Colégio Brasílio Machado na Vila Mariana e depois Faculdade  de Música. Mas, minha formação profissional é de produtora executiva. Iniciei minha carreira em produção de vídeo, na Manduri 35 e logo depois fui para a área musical. Trabalhei com diretores de programas para  TV e documentários: Jose Amancio, Mimito Gomes, Ricardão Carvalho; e gravadoras Som da Gente e Polygran. Por muitos anos fui produtora do cantor e violeiro Almir Sater e da cantora Maria Bethânia. Atualmente trabalho para mim mesma produzindo vídeos institucionais e documentários em parceria com Fabio Otaviano da FazTv e Walter Tabax, e agencio um trabalho do Pedal Sustentável, que gera a própria energia através de pedaladas em bicicletas.

Kultafro: Quais os desafios que você enfrentou para chegar onde está?

Filó Silva: Minha carreira foi caminhando para o relacionamento com pessoas, que é o que consiste a produção. Acreditando no meu potencial, crio sempre desafios que são rapidamente ultrapassados. Engraçado, penso agora que, para mim, ganhar dinheiro nunca foi o mais importante. O importante, sempre, foi fazer o que realmente gosto, e isso sim, eu sempre fiz. E o resultado está aí, estou sendo entrevistada para o site kultafro.

Sendo de família pobre e negra o desafio foi, é e será sempre maior. O profissional de qualquer área é dedicado, mas, quando você tem a cor de pele diferente, você é mais desafiado. A vida vai te desafiando, por mais que você acredite no contrário a vida te mostra que desafios existem a cada momento que você vive. Por exemplo, em 1983, eu era funcionária pública, quase ninguém sabe disso e naquele momento eu, jovem, precisava de novos desafios e um deles era finalizar a faculdade. Quando terminei a faculdade larguei o funcionalismo, que nunca me deu prazer e fui a procura dos meus ideais. Acabei virando produtora!

Kultafro: Qual a influência das raízes negras na sua formação e na sua vida pessoal e profissional?

Filó Silva: As influencias que tive de raízes negras, com certeza, foram as influencias que tive de dentro de casa. Minha mãe me influenciou muito através da música e na minha personalidade. Tenho uma personalidade bem forte desde criança. Minha família é negra. Tenho uma relação muito forte com tios e primos. Amo todos eles! A raça já é bem forte por natureza, afinal agüentar por todos estes anos chibatadas não foi fácil. Essa é a minha maior influencia. Apesar da minha mãe ter um forte domínio na minha personalidade, o cabelo ela não domou, essa é a minha marca registrada, não gosto de chapinha, meu visual é pautado na minha cor, negra.

Kultafro: O mercado de produção é muito competitivo. Como você se posiciona nele e quais as conquistas que você considera importante destacar?

Filó Silva: Apesar da concorrência, no mundo tem espaço para todos os profissionais, o que você tem que fazer é se destacar. No meu caso a relação com pessoas que estão ao meu redor é muito importante. Eu realmente tenho um atendimento diferenciado. E é nesse diferencial que consigo me destacar. Tenho muitas conquistas a destacar, só o fato de chegar onde cheguei, vinda de uma família negra e pobre já é uma grande conquista. Quando olho para trás, minha história poderia ser outra e, no entanto, ela é cheia de vitórias. Derrotas tem, mas o número de vitórias é bem maior.

Kultafro: O Brasil é um país diverso, misturado, que sustenta um preconceito racial de forma velada. Você também tem essa percepção?

Filó Silva: Sim, com certeza. Já passei e passarei por situações bem constrangedoras. Meu marido é branco, jornalista, e sempre que viajamos pelo  Brasil mesmo, as pessoas acham que ele é estrangeiro. Na Bahia acham que sou Bahiana e o Guilherme é de fora do Brasil. Tem uma história muito engraçada. Um dia estávamos numa produtora que eu tinha trabalhado e o pessoal de lá sabia que eu tinha me casado, enfim…. Eu estava vendo umas fotos de um trabalho premiado que uma amiga me mostrava, quando o Guilherme se aproximou e me disse alguma coisa, minha amiga ficou espantada em descobrir que ele falava português muito nem, me perguntou a quanto tempo ele estava no Brasil e o próprio Guilherme respondeu. Kkkkkk… tenho várias histórias engraçadas.

A visão que eu tenho é que por eu ser negra e o Guilherme branco, as pessoas acham que ele sempre é estrangeiro e eu sambista. Por ser negra as pessoas me associam ao samba, fui uma única vez numa escola de Samba, e mesmo assim, a trabalho, isso mostra como as pessoas rotulam pela cor. Nada tenho contra, apenas não tenho identificação com isso.

Passei por discriminação velada quando fazia atendimento à empresas internacionais. Em um encontro de uma associação da classe, um grupo estava fazendo fotos e fui convidada à entrar no grupo. Quando terminou, o fotógrafo pediu para fazer a foto minha com o tal fulano, depois de ter feito a bela foto, foi repreendido pelo presidente da empresa que o chamou de lado e disse que se a foto fosse publicada, ele iria para a rua no dia seguinte.  São essas e tantas outras, tristes, mas, infelizmente reais. Um dia conto o nome do dito cujo.

Kultafro: Quais são os seus projetos de vida para os próximos anos?

Filó Silva: Para os próximos anos quero colocar em prática o canto, continuar minha carreira de produtora, saúde em dia, academia, enfim, continuar com os projetos pessoais e profissionais.

Kultafro: Na sua opinião, a kultafro é uma iniciativa que pode contribuir para a valorização, a disseminação, a geração de negócios e de oportunidades para os empreendedores negros?

Filó Silva: A kultafro abre um espaço democrático social dentro das redes. Conectando tantos participantes de movimentos como simpatizantes e isso é uma grande rede de relacionamento.

Comments: 16

  • Suzana abril 19, 2013

    Grande Filó!! Muito orgulho dessa mulher!!

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  • Nivaldo Moura abril 19, 2013

    Parabéns a vc Filó Silva pelos seus esforços e talentos e ao Kultafro por esse reconhecimento.

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  • Aldo Camolez abril 20, 2013

    Grande Filó, a mulher de mil talentos… E de uma gargalhada maravilhosa.
    Linda, admirada, inteligente… A lista é longa. Sua voz é inigualável. Quero te ver brilhando no seu show solo em breve. 🙂

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  • Eriba abril 20, 2013

    Parabéns Filó, é isso aí!

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  • Ieda abril 20, 2013

    Filo querida…..mulher surpreendente ,interessante,inteligente…muitas faces para uma pessoa que gosto e admiro principalmente pela autenticidade.
    Sou sua fã de carteirinha….parabéns ! A entrevista ficou muito boa,mas confesso que quando penso em você nunca me lembro de sua cor,vejo apenas uma mulher brilhante ,espirituosa e linda.
    Te gosto pacas!!!!

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  • Armelin abril 20, 2013

    acredito que a melhor mensagem que extraí de sua entrevista, é nunca desistir não importando as adversidades que o mundo coloque a sua frente. Não ter ido ao USA foi bom, assim você não contribuiu para maior economia falsa do mundo…

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  • mauricio moura abril 20, 2013

    Ola Filo, parabens pela sua entrevista, voce é admiravel, e sua força serve pra muita gente divagar se agitar pois a vida passa e temos que ser felizes agora. é um prazer e uma delicia estar sempre em contato contigo, como vizinha, amiga, colega de academia, nosso envolvimento com nosso querido bairro, troca de idéias, musicas… enfim…Vida em total ebuliçao!
    Beijao, Mauricio M

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  • Bel Ascenso abril 20, 2013

    Filó, batalhadora, dona de uma voz e gargalhadas maravilhosas, sua entrevista é uma prova de força, inteligência e sensibilidade. Parabéns à Kultafro por divulgar e fomentar as lutas e conquistas das mulheres negras!

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  • Marcelo Avila Fernandes abril 21, 2013

    Filó é tudo isso que foi descrito e muito mais. Trabalha no marketing também, esta sempre presente com os amigos e é nossa irmã do coração. Abração!!!

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  • Antonio abril 22, 2013

    Essa é minha irmã !!!! Parabéns filhinha.

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  • Lili Barbosa abril 22, 2013

    Grande Filó, guerreira……………..Beijos!1

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  • Lili Barbosa abril 22, 2013

    Grande Filó, guerreira……………..Beijos!!

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  • Lara Marin abril 22, 2013

    Grande Filó!

    Sempre muito parceira e levando a vida no miudinho! Batalhadora e sonhadora! Continue assim!

    bjs

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  • tania muller abril 27, 2013

    Filó. Você é admirável. é uma honra ser sua amiga . Sucesso e força. bjs

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  • Dayse - USP maio 02, 2013

    Maravilhosa, Filó, acredito que na vida conhecemos pessoas não por um acaso, e quando tive a oportunidade de conhecê-la percebi que você é uma pessoa iluminada e do bem, agora conhecendo a sua história, acabei confirmando a primeira impressão que tive a seu respeito, fiquei maravilhada pela sua história de vida e pela sua coragem, vc é uma verdadeira guerreira.
    Parabéns!! O mundo sempre conspira a favor das pessoas do bem.
    Um grande Beijo
    Dayse – USP

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  • ANTONIETA junho 04, 2013

    Oi Filó,
    Querida vai chegar lá porque você já está lá kkk. Um beijo minha linda, estou a sua disposição para cantarmos!
    Antonieta

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