Rodrigo dos Santos apresenta Fela Kuti

Por Vanessa Soares e Liliane Braga

Rodrigo dos Santos, em cena \divulgação.

 

A Kultafro conversou com Rodrigo dos Santos, carioca, ator e diretor de teatro, que fala sobre “O Subterrâneo Jogo do Espírito”, seu monólogo sobre a vida de Fela Kuti, sua relação com esse grande artista-ativista nigeriano e, também, sobre sua relação com África. A entrevista foi proposta por Vanessa Soares , formulada em parceria com Liliane Braga e aconteceu durante a passagem da peça pelo Teatro Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo no mês de março (em cartaz até o dia 17/03), dentro da programação da Mostra Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada (http://www.melaninaacentuada.com.br/). Confira!
Kultafro – Fale um pouco de você e de como e quando você passou a ter contato com a vida e a obra de Fela Kuti?

Rodrigo -Comecei no teatro em 1985, aos oito anos de idade e, com 24, ingressei na Cia dos Comuns, onde comecei a criar e a fortalecer minha ligação com o teatro negro. A Comuns é uma companhia de atores negros, criada pelo atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Hilton Cobra, com uma forte atuação no cenário do teatro negro brasileiro, com atividades dentro e fora do palco. Ela é também o berço do “Subterrâneo Jogo do Espírito” e foi o espaço onde eu e diversos colegas pudemos aprofundar nossa visão e nossa vivência como criadores e pesquisadores negros.
Em 2008, enquanto eu caminhava com minha filha pela orla da zona sul do Rio de Janeiro, havia uma banda tocando na praia, a renomada Orquestra Voadora. Eles tocaram uma música de Fela Kuti. Um dos integrantes da banda, amigo meu de adolescência, me falou rapidamente da história de Fela, fatos pontuais, como o ativismo político, a perseguição por parte do governo, o casamento e a doença. Fiquei interessado e comecei a procurar. Fiquei decepcionado com a carência de informações, só a internet pôde então me fornecer alguma coisa. Apesar da extensa bibliografia sobre Fela no exterior, aqui não havia nada publicado. Então, baixei músicas, letras, vídeos e trechos de entrevistas, de artigos e do livro do Carlos Moore.

Kultafro – Na sua trajetória, enquanto jovem homem negro proveniente dos morros cariocas, o Fela influenciou e/ou influencia na sua vida diretamente?

Rodrigo – Minha relação com o morro vem da família do meu pai, retirante sergipano que se alojou, nos anos 60, no Morro Santa Marta, hoje “pacificado” pelo Estado, e que fica na zona sul do Rio. Ele saiu do morro quando casou com minha mãe e eu fui criado no “asfalto”. Meu pai trabalhava como porteiro num edifício em Laranjeiras e vivíamos num quarto que fica no playground do prédio. Era um quarto com um banheiro e uma cozinha, onde vivíamos eu, meu pai e minha mãe. Na adolescência comecei a perceber como a relação entre a minha casa e os apartamentos do edifício trazia alguma coisa de senzala e casa grande. Foi aí que comecei a prestar mais atenção em tudo que fosse relacionado à condição do negro, do pobre e do artista ao meu redor. Hoje, sou fortemente marcado pelo exemplo de Fela Kuti. Não o vejo como um ídolo, mas como um exemplo. Arte, política, antropogênese e moral agora são temas para mim que foram iluminados pelo pensamento e pela vida, pelo exemplo de Fela Kuti. Meu próprio pensamento adquiriu novos contornos e direções. A necessidade de pensar filosoficamente através de um outro paradigma que não a racionalidade ocidental tem se intensificado cada vez mais em minha vida, à medida que descubro um pouco mais sobre a vida e a obra de Fela Anikulapo-Kuti.
Por exemplo, a logomarca da minha companhia, a Cia dos Atores do Rei, que foi formalmente inaugurada com as apresentações do “Subterrâneo…” em São Paulo, parte do princípio kutiano de que a arte é uma arma. Ele falava em termos da música, mas evidentemente esse princípio abrange a criação artística de um modo geral. Tem uma máscara desenhada na logomarca que remete a um Fela Kuti com o rosto pintado.

Kultafro – Representar Fela é ter muita força. O que te fez representá-lo?

Rodrigo – A necessidade de criar um trabalho próprio, de compartilhar o significado do exemplo Fela Kuti, uma pauta vazia num teatro ocupado por amigos em Copacabana, em 2009, e o incentivo da minha companheira, que me provocou, dizendo que eu deveria fazer um monólogo sobre ele.

Kultafro – Como surgiu o título do monólogo?

Rodrigo – Vem da expressão “underground spiritual game”, jogo espiritual subterrâneo. Com esse termo, Fela designava suas apresentações no Afrika Shrine, fazendo jogos de pergunta e resposta com a plateia, em geral, jogos musicais. Por exemplo, ele chegava e dizia: “Everybody say yeah, yeah”! O povo respondia: “Yeah, yeah”! Esse jogo também era feito de discursos, ou provocações, os yabis, que versavam sobre diversos temas, política, cultura, sexo, corrupção, pan-africanismo, história, e por aí vai.

Kultafro – Como se deu a sua pesquisa? Quais foram as suas fontes?

Rodrigo – Inicialmente, trabalhei com vídeos, letras de músicas e artigos da internet, sempre procurando fazer uma relação com a sociedade brasileira contemporânea. Entrevistei o Carlos Moore também. Depois, importei a biografia escrita pelo Carlos e mais dois trabalhos acadêmicos sobre Fela, um, escrito por um nigeriano e, outro, escrito por um americano. As músicas dele também são fontes permanentes de inspiração e criação, eu sempre escuto, procuro perceber os arranjos, a divisão dos compassos, o desenho de cada instrumento e o conteúdo das letras. Os vídeos funcionam como um excelente estímulo também, porque neles podemos observar todos os integrantes da banda, inclusive as dançarinas. Sua dança pode ser superficialmente associada apenas à questão da sexualidade, do tesão e da pornografia. Mas, um olhar mais atento pode encontrar princípios básicos de sobrevivência como a fertilidade, a afirmação do corpo e da beleza. Um p provérbio io yorubá afirma que o caráter é beleza.

Kultafro – Por que escolheu trazer para a peça a nona das 26 esposas de Fela, Fehintola?

Rodrigo – Porque eu quis apresentar um aspecto da relação dele com o feminino, que eu acho que precisa ser avaliado de uma forma mais humana, mais natural, mais livre de moralismo judaico-cristão, mais livre de interesses comerciais e de domínio. É a questão da sexualidade. E tudo que ela fala na peça são palavras do próprio Fela, misturadas com coisas que eu mesmo inventei. Como, por exemplo, o fato dela ser a nona esposa, rs. Na verdade, não sei se ela foi realmente a nona esposa, brinquei com o número 9, por causa do simbolismo associado aos Odu do culto de Ifá.

Kultafro – Na peça, uma dançarina entra em cena no ataque à República Kalakuta. O que você quis representar ali?

Rodrigo – Mais uma vez o feminino. Gosto que cada um faça sua leitura, mas quis representar o axé de Iansã. O 9 é um número associado a Iansã, por isso eu falo da “nona esposa”. Tem também uma quartinha de barro em cena e um abano que são objetos relacionados à Iansã. Iansã veio forte nesse processo de chegada em São Paulo, rs.

Kultafro – Já pensou em montar um espetáculo sobre o Fela com mais atores, além desse monólogo?

Rodrigo – Já pensei, sim. Fiz um ano de teoria musical pra me preparar, mas meus projetos tomaram outros rumos. No momento não penso nisso, não.

Kultafro – Há outras apresentações já agendadas para “O subterrâneo jogo do espírito”?

Rodrigo – Infelizmente, ainda não. Vamos providenciar.

Kultafro – Dos lugares onde ainda não se apresentou com a peça, para onde gostaria de levá-la?

Rodrigo – Recife, baixada fluminense no RJ, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília.

Kultafro– Quais foram os passos e os desafios que você empreendeu para trazer a público essa montagem,

que você mesmo escreveu e dirigiu?

Rodrigo – O maior desafio foi produzir sem patrocínio. Mas, sempre pude contar com a força dos amigos e dos colegas de ofício, que sempre somaram. Outra coisa muito complicada é dirigir e atuar. Até o trabalho se consolidar e o diretor/intérprete ficar satisfeito é um sofrimento, rs. Nisso contei muito com as opiniões dos amigos, com o carinho e o amor deles: Jorginho de Carvalho, Ângela Câmara, Gustavo Mello, Hilton Cobra, Felipe Koury, Cridemar Aquino, Anna Paula Black, Denis Gonçalves, Fátima Guedes, Márcio Meirelles, Carlos Moore e, especialmente, Sarito Rodrigues e Valéria Monã, minhas companheiras da Cia dos Atores do Rei. Elas foram essenciais nessa vinda para SP.

Kultafro – Você já esteve no continente africano? Se sim, como foi sua(s) experiência(s)? E qual contribuição acha que um ator/diretor de teatro negro brasileiro como você pode levar aos africanos e o que gostaria de trazer na sua bagagem de retorno da África?

Rodrigo – Eu filmei em Moçambique em 2004, fiquei mais de um mês lá. Conheço também o Senegal e a África do Sul. Estar na África é muito emocionante, é desmitologizante também, porque a gente percebe as áfricas que existem naquela terra, as diferenças. A África é oriental, é a alternativa aos valores hegemônicos ocidentais. Cada povo com seus costumes e valores pode passar o fundamento de um novo olhar, de um novo sentir, de um novo conhecer. O fundamento de uma outra racionalidade, diferente da pasteurização do olhar que a nossa sociedade valoriza, diferente da estrutura que organiza a lógica dos processos acadêmicos, desde a redação de um artigo, ou de uma monografia, até a gestão de uma universidade. O que eu poderia levar com mais consciência na próxima viagem para lá é um Brasil possível, no qual eles vão se reconhecer também e destacar aspectos desconhecidos para nós mesmos. Das outras vezes, eles viram um Brasil em mim também, mas viram o ser humano, o capoeira, o artista, o amigo, o cliente e, certamente, outras coisas. Agora, amadureci mais, minha responsabilidade com a manutenção da cultura aumentou, aumentou com a necessidade de criar minhas próprias obras. O Brasil que eu levaria em mim dessa vez vai junto com o ser humano, o capoeira, o artista, o amigo, o cliente, vai junto com minhas sombras também… eu iria mais cascudo, consciente que corpo e espírito é uma coisa só.

Kultafro – O que podemos dizer a quem quiser saber mais sobre outros projetos em que o Rodrigo dos Santos está envolvido?
Podem acessar minha pagina no Facebook:
http://www.facebook.com/rodrigodossantos.supermenteblack

 

Vanessa Soares: dançarina e produtora
“Há alguns poucos anos, conheci Fela Kuti por um CD que me foi dado por uma amiga. A primeira faixa que ouvi foi “Water no get enemy” (“Água não tem inimigo”, em tradução livre). Me apaixonei e comecei a pesquisar sobre sua vida e obra.
Tive o privilégio de conhecer o mestre Carlos Moore e o livro “Fela – Essa Vida Puta”, biografia autorizada que ele escreveu, e que é hoje o meu livro de cabeceira, e também o documentário que disponível na internet, “A música é a arma”, de Stéphane Tchal-Gadgieff e Jean Jacques Flori. Desde então, no meu espetáculo “Dança com P.”, danço ao som de Fela Kuti, recito trechos do livro e de letras de suas músicas.
Tive o prazer de assistir ao show do filho mais velho de Fela, Femi Kuti, no Sesc Santo André em 2010. Na Virada Cultural em 2012, dancei no show de Tony Allen, ex-baterista do grande artista nigeriano e pude conhecer também Seun Kuti, seu filho mais novo”.

Liliane Braga: jornalista, pesquisadora e empreendedora
“Ouvi sobre Fela pela primeira vez no início dos anos 2000. Em 2007, fui presenteada com uma cópia do documentário mencionado pela Vanessa. Em 2010, uma amiga nigeriana em visita a SP me deu testemunhos pessoais da importância do artista para o empoderamento da população nigeriana, do quanto a vida e obra dele foram dedicados à emancipação da África. Tive a oportunidade de sentir o impacto político do legado do Fela quando, em 2012, assisti a um show de Seun Kuti & Egypt 80 feito para uma plateia anglófona e pude perceber quão impactante é integrar a plateia de um espetáculo em que beleza (aos olhos e aos ouvidos) e discurso político estão em harmonia e o quanto esse filho de Fela dá continuidade à obra do pai abordando questões políticas mundiais do século XXI. Veio a tradução para o português do livro do professor Moore e, com ele, um novo portal se abriu”.

Foto da Home: Rodrigo dos Santos, em cena no monólogo “O Subterrâneo Jogo do Espírito”.\ divulgação

 

Vanessa Soares (com pintura facial) após participação no show de Tony Allen, ex-baterista de Fela Kuti com ele e Seun Kuti (à direita).\ divulgação.

 

Leave A Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *