Iyalode – Damas da Sociedade

Por Pedro Neto

foto – Lucas Pupo, 2005/divulgação

Recebe prêmio no 2º. Concurso de Documentários da TV Câmara e é licenciado para o Canal Curta!

 

Quando elas querem enviar eleye em missão, abrem a cabaça; eleye voa e vai levar a mensagem de que está encarregada, seja em Lagos, seja em Ibadan […] seja a um dos quatro cantos do mundo.”

                                                                                (VERGER, 1994).

 Com a escravidão, a influência da cultura africana foi decisiva para a produção do quadro social e cultural do Brasil. Os africanos trouxeram para o país os seus costumes, estruturas hierárquicas, língua, música, tradição oral e mitologia. Com o passar dos anos e apesar das adversidades encontradas, estas heranças resistiram e, ressignificadas, constituíram o candomblé, uma religião tipicamente brasileira.

Nesta reconstrução, a mulher assume um papel importante dentro da cultura negra. Como fala Bernardo, a autonomia do ser feminino é identificada na colonização, onde só a mulher pode comprar a alforria de seu companheiro. Manifesta-se também no Império, com a Lei do Ventre Livre, onde só a mulher e seus filhos se constituíam como família. (BERNARDO, 2001).

O ser feminino sempre será um objeto de estudo inesgotável, pois exerce papéis peculiares nas diferentes culturas e sociedades. O papel da mulher dentro dos candomblés é o tema central do vídeo-documentário Iyalode: damas da sociedade. (2005, 52`,São Paulo)

O filme é um estudo da mulher negra dentro dos povos tradicionais de matriz africana, através do relato das histórias de vida das mais antigas e respeitadas mães de santo da cidade de São Paulo. Elas têm mais de 60 anos, pertencem às diversas nações do candomblé, nasceram em diferentes lugares do Brasil e, atualmente, vivem nas diversas regiões da capital paulista.

São mulheres de personalidade forte, que dedicaram suas vidas ao terreiro, cada uma da sua forma, com sua crença, mas que possuem em comum a memória da construção do candomblé na cidade de São Paulo.

A palavra-título, Iyalode (Ìyálóòde), pode significar literalmente na língua ioruba “alta dama da sociedade”. Esta expressão permite várias interpretações, mas o sentido abordado no documentário é a exaltação do poder da mulher dentro da religião e uma alusão às mães de santo entrevistadas.

Muitos documentários já foram realizados sobre as religiões afro-brasileiras, poucos tiveram repercussão e cuidado acadêmico como: Yaô – 1976 de Geraldo Sarno, Orixá ninu ilê e Iyá-mi agbá – 1979 de Juana Elbein dos Santos, Egungun – 1982 de Carlos Blajsblat e mais recentemente Pierre Fatumbi Verger – 1999 de Lula Buarque de Holanda e Atlântico Negro/Na Rota dos Orixás – 1999 de Marcelo Barbieri.

Mesmo assim, a maioria dos documentários foi desenvolvida com preocupação de explicar alguns aspectos litúrgicos das religiões de matriz africana. Poucos se dedicaram na captação de transformações. Foi também a cultura negra em mudança e sua capacidade de ruptura e inovação, na perspectiva de mães de santo, que o documentário Iyalode: damas da sociedade registrou.

O filme realizou um trabalho de documentação da história do candomblé na cidade de São Paulo, espaço geográfico até então com nenhuma produção profissional sobre o tema. Tanto por questões ligadas ao racismo e aos preconceitos sobre a religião no sudeste, quanto pela pouca idade comprovada de existência na cidade.

Este documentário foi baseado na pesquisa de iniciação científica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo intitulada “A Religião da Diáspora Negra: Continuidades e Rupturas” [1] financiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa, entre os anos de 2000 e 2002, realizada por José Pedro da Silva Neto e Ivete Miranda Previtalli, sob orientação da Profª Drª Teresinha Bernardo.

Para sua viabilização recebeu o 1º. Prêmio Palmares de Comunicação – 2004 do Ministério da Cultura do Brasil na sua versão de 20 minutos e um apoio financeiro da Rede Sesc Senac na sua versão de 52 minutos. Sua pré-estreia foi no Museu AfroBrasil na abertura da exposição Dona Olga de Alaketo Iyalorixá da Bahia sob a curadoria de Emanuel Araújo, sua estreia no CINE SESC-SP, e exibido na TV Sesc Senac, TV Cultura, Canal Brasil, TVE, Cine Ufscar, SESC Vila Mariana. O documentário foi ainda selecionado e exibido nos seguintes festivais: 19º Mostra do Áudio Visual Paulista – SP, 12º Vitória Cine Vídeo – ES, 13º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, Festival Internacional de Cinema Feminino – RJ, Mostra Internacional do Filme Etnográfico 2006 e Festival du Film Panafricain 2007 – Cannes – França.

Outra importante parceria foi a Pacto Audiovisual de Malu Viana Batista, mulher forte e também diretora executiva da TAL – Televisão América Latina (http://tal.tv/) que empenhou esforços na realização do documentário.

Mãe Manaundê foto – Luiz Paulo Lima – 2004

Nossas guerreiras negras, Mãe Manaundê (Julita Lima da Silva) filha de santo de Nanã de Aracajú e dirigente do Terreiro de Santa Bárbara no bairro da Vila Brasilândia, o mais antigo de São Paulo que se tem notícias, hoje dirigido por Mãe Pulquéria, Mãe Ada de Omolu (Adamaris Sá de Oliveira) dirigente do terreiro de nação efan Ilê Oluaie Omode Okurin Ifon no bairro da Vila Mazzei, Mãe Juju de Oxum (Juverginia Cerqueira de Amorim) filha de santo da Mãe Menininha do Gantois e filha consangüínea de Nezinho de Muritiba (Manoel Cerqueira de Amorim) e dirigente do terreiro Ilê Maro Ketu Ase Oxum no bairro do Jd. Iva, Mãe Sessu (Clarice do Amaral Neves) dirigente do terreiro Ilê Axé Palepá Mariwo Sesu no bairro da Pedreira, zona sula de São Paulo, presentes no documentário.

Mãe Pulquéria, Mãe Juju, Mãe Ada e Mãe Sessu – foto Fábio José – 2005.

Durante a pesquisa contamos ainda com Mãe Ana do Ogun (Ana Maria Araújo Santos) iniciada por Mãe Simplícia da Casa de Oxumarê,, Mãe Wanda de Oxum (Wanda de Oliveira Ferreira) filha consangüínea de Mãe Izabel Kotessu, filha de santo de João da Gouméia  e dirigente do Ilê Iya Mi Osum Muiya no bairro da Casa Verde, Mãe Kassarandê, Mãe Sylvia de Oxalá (Sylvia de Souza Egydio) sobrinha de Caio de Xangô (Caio Egydio de Souza Aranha) e dirigente do Ilê Aché Obá no bairro do Jabaquara.

Iyalode quer mostrar o cotidiano das mães negras, mulheres que amam, odeiam, aconselham, cuidam, cozinham, são também pessoas comuns, mas que concentram, guardam e distribuem grande parte da cultura negra ressignificada neste país.

Iyalode quer voar, quer nadar livremente, cantar e falar, acabar com os preconceitos raciais e religiosos. Convidar todos para uma maior valorização da cultura negra dos povos e comunidades tradicionais paulistas sempre calcados na força da mulher negra.

Um documentário feito para nós, filhos, e para os que não são. Uma idéia para que todos nós não tenhamos vergonha, nem medo de assumir que somos do candomblé e com orgulho filhos de negras mulheres.

Mãe Pulquéria

 “Ser mãe de santo? É o mesmo que a gente ser mãe dos filhos que teve e eu acho que com mais intensidade, porque a gente cria os iaôs dentro do roncó, a gente passa ali 21 dias criando, rezando maionga de manhã, não é isso, então a gente se apega mais do que um filho. As vezes eu não penso em dar uma roupa para um filho e sim  fazer um ebó no filho que precise de santo.”

 Mãe Sesu

“Ser mãe de santo é ser responsável, integra e com força porque é difícil conduzir um filho que nasce de você imagina um filho de santo que esta nascendo para uma religião.”

Mãe Juju

“A gente sempre precisa de uma mãe, a gente nunca fala: “Eu não preciso da minha mãe”, “Precisa, meu filho”, um filho sempre precisa da sua mãe. Uma palavra, um sorriso, uma benção, um carinho.”

Mãe Ada

“E mãe é uma só, pai pode ser qualquer um, mas mãe é uma só.”

 

 José Pedro da Silva Neto é Cientista Social PUC-SP, Pesquisador em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, Membro do Núcleo de Relações Raciais, Memória e Imaginário do PEPG-PUC-SP coordenado pela Profa. Teresinha Bernardo, Documentarista, Diretor de Projetos da Campomare Produções, Diretor do Fórum para as Culturas Populares e Tradicionais, Membro do Colegiado Setorial de Culturas Afro-brasileiras do Conselho Nacional de Politicas Culturais do Ministério da Cultura e Produtor Cultural. Onilu iniciado no Ilé Àse Palepa Mariwo Sesu – SP (fundado em 1979).

[1] Premiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa no 10º Encontro de Iniciação Científica da PUC-SP como melhor trabalho em Antropologia e Ciências Humanas em 2001, e apresentada na 54ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Comments: 1

  • Yan Chi outubro 29, 2013

    Aonde eu posso ver esse documentário? Existem alguns pedaços no youtube, mas eu gostaria de ve-lo na integra! Muito bonito!

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