Axé das Estrelas

Feniks Lotou

 

Mãe Beata

Por debaixo do pano, nós fazíamos os nossos complôs”. Mãe Beata

Entre o passado e o presente. A esperança que se transforma em fôlego e bússola e que nos remete às memórias que repousam em nosso subconsciente. Na perspectiva de encontrar nossas referências negras femininas na História do Brasil, “damos de cara” com personagens anônimas, que remontam a diáspora do universo de cores, sons, mistérios, aromas e sabores que guardamos nas memórias. Mas afinal, quem são essas mulheres? Qual a sua importância na nossa história, nos nossos costumes?

Segundo Sueli Carneiro, em publicação na Revista História Viva – Temas Brasileiros: Presença Negra, desde o período colonial, as mulheres negras são prisioneiras de estereótipo construído pelo gênero dominante, sejam eles poetas, historiadores, romancistas. As imagens de promiscuidade e sexualidade da “mulata” são até hoje exploradas nas representações sociais.

Sendo a história de mulher negra um discurso sobre seres invisíveis, cabe-nos, na perspectiva feminista e anti-racista, resgatalar-lhes os nomes, sobrenomes e ações,… A mulher negra está presente em praticamente todos os tipos de trabalhos. Sueli Carneiro.

Maria Stella de Azevedo Santos

Segundo Monica Pinheiro Velloso, em grande estudo histórico sobre a representatividade das “Tias Baianas”, as mulheres negras tiveram grande papel na construção de espaços de convivência pós-libertação e foram elas que conquistaram formas alternativas de trabalho e sobrevivência, já que aos homens não havia qualquer opção de trabalho. Foram então às mulheres para as ruas, com seus tabuleiros, com suas habilidades para cozinhar, passar e lavar para fora, entre outros diversos trabalhos. Partiu dessas mulheres até a articulação e comunicação, para que em tempos, o homem conseguisse trabalho. Toda a forma de organização e comunidade foi instituída por essas mulheres, que criaram os ranchos, onde as mulheres mais velhas cuidavam e instruíam todas as crianças da comunidade.

O Rancho das Sereias foi um dos primeiros ranchos que se tem notícia na região centro-oeste do Brasil. Cada um dos ranchos estabelecidos era uma espécie de passagem obrigatória por parte dos recém-chegados baianos ou africanos. Além da memória ativa e construção territorial, era um local de forte resistência cultural ao Estado. Lá se encontravam a música, dança, cozinha, saber e estratégias. Daí a importância de reconstruir essa “memória coletiva subterrânea” cujas lembranças são zelosamente guardadas em estruturas de comunicação informais. Entendendo estes espaços de convivência compreendemos a dinâmica da nossa realidade que foge completamente aos padrões explicativos de desenvolvimento, no que se refere ao papel da mulher e do homem na sociedade.

A cultura africana é a mãe de nosso comportamento e comprometimento com os “conterrâneos”. Uma cultura passada com muita luta através de rodas de Griots, ranchos carnavalescos e cantigas. A mulher negra é o símbolo no que se diz respeito à luta pela sobrevivência das comunidades, liderando sob as mudanças comportamentais ocasionadas pela forte presença da cultura europeia no Brasil e sua decorrências, como a fragmentação da família africana, em uma época que não havia distinção de gênero na divisão de tarefas. Os ranchos eram cantos, espaços onde era possível unir esforços e realizar tarefas em prol de uma cultura ameaçada. Era o polo aglutinador de energia, liderada por mulheres como Tia Ciata, Vovó Damiana, Dona Zica do morro a Mangueira, Perpétua, Veridiana, Calu Boneca, Maria Amélia, Rosa Olé, Gracinda. Segundo Monica Pinheiro Velloso: “A lista é infindável. Uma coisa, porém, é certa: todas desempenharam um mesmo papel, ou seja, os de verdadeiras líderes comunitárias.”

Samba de Roda de Mulheres Recôncavo Baihano

As mulheres negras baianas incorporam grande parte desse poder informal, construindo poderosas redes de sociabilidade. Marginalizadas da sociedade global, destituídas de cidadania e de identidade, elas criam novos canais de comunicação sócio-política. Esse tipo de sociabilidade, baseado em papéis improvisados, tem sido praticamente ignorado pela nossa historiografia. Nosso processo de urbanização, por exemplo, está muito mais próximo das favelas do que dos modelos europeus e norte-americanos urbanos dos séculos XVIII e XIX (Dias, 1985).
Enquanto a religião europeia tomava suas ordens, a mulher era vista a dona de casa, sem liberdade. Como as mulheres negras foram às ruas, com seus tabuleiros para trazer a principal renda dentro das comunidades, eram vistas como pecaminosas. Há uma preocupação burguesa em dividir as funções entre homem e mulher e uma preocupação grande com o individualismo, contrário a proposta dos ranchos e suas matriarcas, que agregavam toda a comunidade. Hoje, sobrevivemos nos antigos quilombos e nos novos quilombos urbanos. Essas mulheres que fazem parte de nossa história, da qual não temos registros oficiais, foram mães de grandes músicos e poetas, acolhedoras de grandes jornalistas e escritores da época. É a fonte de todo o conhecimento brasileiro, que a História não conta.

“Seja o que és, sem mecanismos. Conhece-te a ti mesmo, para depois entender o próximo. Remete ao passado e história, sem impor e discriminar nada nem ninguém”.

VELLOSO, Mônica Pimenta. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, 1990, p.207-228.

CARNEIRO, Sueli. História Viva Temas Brasileiros – vol. 3 – Presença Negra – Duetto, p. 47.

Comments: 2

  • adriano março 08, 2013

    Muito boa a matéria, é sempre importante saber mais e mais historias das “nossas” mulheres negras…

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  • Redação kultafro
    Redação kultafro março 09, 2013

    Parabéns Feniks, pela postagem e pela postura…

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