HQs latino-americanos, preconceitos e ações afirmativas.

 

A Kindumba da Ana\Francisca Nzenze

Hoje no Brasil  já se torna recorrente o uso dos quadrinhos pelos afrodescendentes, como  interesse, apropriação  e conhecimento dessa linguagem para  retratar também de maneira lúdica os seus particulares cotidianos, resgatar  a autoestima nas construções de identidades  que confirmem a cidadania, visibilizem as diferenças como valor civilizatório.

 

Luana e sua turma                                                                    Mônica e Jeremias

 

Entre os historiadores não existe consenso muito claro sobre a paternidade desta linguagem. Para os japoneses  o surgimento acontece no ano de 1814, os europeus  em 1827, americanos em 1896  e no Brasil  em 1905,  com a “Tico Tico, primeira revista a publicar histórias em quadrinhos.

Mas ao contrário existe consenso  na opinião desses mesmos  estudiosos, em afirmar que os quadrinhos foram uma evolução das charges humorísticas que já eram comuns entre os séculos XVIII e XIX.

 

Revista Tico Tico                                          Memin                                        Benjamim e Chiquinho

Provocar o riso ri-se do outro, da sua exposição a situações ridículas, de sua condição supostamente inferior, seja física quanto intelectual são sintomas de absoluta falta de correspondência entre o indivíduo real e o que é traçado pelo estereótipo.

Durante muito tempo esses estereótipos foram usados sem o mínimo de pudor. Os negros foram objeto dessas caracterizações preconceituosas, potencializadas através de imagens de selvagens nativos, com ossos transpassados pelos narizes, serviçais de homens e mulheres brancas, exposições a situações ridículas, sempre nas condições inferiores, subalternas e agressividade sexual.

Para Freud, “rir do outro é uma maneira “civilizada” de agredí-lo, uma vez que a sociedade e seus códigos morais impedem o indivíduo de se manifestar como bem entender.  A possibilidade de rir da autoridade, do inimigo, do mais fraco é fonte de prazer que explica o sucesso das sátiras e das caricaturas de políticos, por exemplo”.

Segundo os estudos do Professor  Nobuyoshi Chinen, sobre  “ a presença do negro nos quadrinhos latino-americanos”,  embora escassos e de difícil  obtenção,  destaca-se  em sua pesquisa dois personagens dessas histórias, que se passam na Argentina .

Apesar  das pesquisas do Indec – Instituto Nacional de Estadística y Censos, em conjunto com parte de outras instituições e autoridades argentinas, em querer  apagar qualquer presença do negro nos registros demográficos, sabemos  que estima-se um segmento  de dois milhões de pessoas, correspondendo a 5%da população.

 

Negro Raúl                                                                                      Negra Fulù

   Com essas informações é factível entender as  ausências e quando das  presenças  dessa população  nas histórias em quadrinhos,  porém que elas  existem, existem!!  Nobuyoshi  apresenta dois personagens que merecem destaque.

O primeiro é o negro Raul, de Arturo Lantireri, criado  em 1916, um anti-herói ,espécie de malandro  que vive querendo se dar bem, mas que no final sempre leva a pior, numa crítica do autor à própria sociedade a época.

 

Fulù de Carlos Trilli\ Eduardo Risso                                      Zumbi, de Antonio Krisnas\ Allan Alex.

Outro é a negra Fulú, com roteiros do  Carlos Trllo e desenhos de Eduardo Risso. Escrava de extrema beleza e sensualidade, sempre castigada  por provocar o desejo dos homens e o ciúme das senhoras brancas.

Curiosamente, a série se passa no Brasil, para onde Fulú foi trazida após ser capturada na África e faz referência ao Quilombo dos Palmares, comunidade criada por escravizados foragidos.

Em 1955,  sociólogo brasileiro Clóvis Moura com as ilustrações de  Àlvaro Moya, publica  a “Saga de Zumbi”, como objetivo de popularizar a história  do personagem, aqui como  um herói negro de Palmares.

Outros retomaram no decorrer dos anos a Saga Palmarina misturando elementos  da cultura popular como o Sací, um personagem quase “Macunaímico” que gosta de levar vantagem em tudo  e a turma do Xaxado, possibilitando várias leituras polêmicas, representados com esta intenção, entre o real e o imaginário,

É o caso da publicação  de 1969, “Resistência e coragem” de Antônio Cedraz, onde esses  personagens infantis seguem em direção a Palmares para lutar ao lado do super-herói Zumbi contra as tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho.

Resistência e coragem de Antônio Cedraz                            Revolta dos Malês\ Maurício Pestana

 

Resistência e coragem de Antônio Cedraz    Revolta dos Malês\ Maurício Pestana

Já na égide das conquistas dos movimentos sociais negros , verificamos o uso das histórias em quadrinhos como  ferramenta comunicacional, materializando para  implantação das politicas públicas no setor da educação, a inclusão do ensino das histórias das Áfricas e dos Afrodescendentes  nas escolas  públicas no país.

O cartunista Maurício Pestana colabora com esta conquista publicando  uma série em quadrinhos , com apoio da Escola Olodum e Leis de incentivos,  todas baseadas em temas referentes às resistências negras brasileiras, como as Revoltas da Chibata, Malês, Alfaiates, Búzios  entre outras.

Fonte:: 1)Tese A PRESENÇA DO NEGRO NOS QUADRINHOS LATINO-AMERICANOS:

            UMA BREVE HISTÓRIA. O CASO DO BRASIL  do Professor Nobuyoshi Chinen

           2) Negro História em quadrinhos de Professora Natânia Nogueira

           3) Racismo e ideologia nas Histórias em Quadrinhos: professora Natância Nogueira

Luiz Paulo Lima

Luiz Paulo Lima

Jornalista, BK4 Comunicações

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