…e a garoa virou temporal

Por Oswaldo Faustino/Jornalista

“Por que bebes tanto assim, rapaz? Chega! Já é demais!”… Este samba, intitulado É Bom Parar, de Rubens Soares – que dizem ter sido feito em parceria com Noel Rosa, apesar de não constar no selo do disco gravado por Francisco Alves, em 1936, sucesso no carnaval daquele ano, segundo o Dicionário Cravo Albin –, me inspirou, hoje, uma paródia… boba, mas arrancada do fundo de meu coração de sambista paulistano: “Por que choras tanto assim, São Paulo? Chega! Já é demais!” Acordei hoje com a cidade em prantos. A moça do tempo, na TV, alerta que São Paulo chorará, no mínimo, até a quarta-feira de cinzas. “Lá se foi o carnaval”, pensei. E, como adoro uma frase de efeito, completei: “A festa da alegria naufragada no dilúvio da tristeza”. A chuva, escorrendo pelos vidros da janela, funciona como uma máquina do tempo e, nostalgicamente, arrasta meus pensamentos para um tempo em que nossa cidade ainda envergava o título de “São Paulo da garoa”, fria, úmida, mas de noites quentes, boêmias, vibrantes… mas essa já se foi há muitos carnavais! A cidade se transformava no carnaval. As decorações das vitrines das lojas tornavam-se “momescas”. Máscaras, pinturas, sangue de diabo, roupas coloridas, confetes, serpentinas e, anos após, as fantasias foram encurtando e os corpos ficando cada vez mais nus. “Carnaval é pouca roupa e muita imaginação…”. A explosão de alegria e luxúria justificava a penitência na quarta-feira de cinzas e o longo período da quaresma. E quem não aproveitasse só teria o sábado de Aleluia para descontar esse período de contenção, malhando o Judas. Na água que escorria, pela janela, na manhã de hoje, eu me vi, de calças curtas, na cozinha de paredes cobertas de azulejos brancos e com piso quadriculado de lajotas brancas e pretas, na Rua Pepiguari, 55, no Alto da Lapa. Dada, minha mãe, apesar de sorridente, está agitadíssima e preocupada, retirando do forno a assadeira com as coxas e sobrecoxas de frango que serão colocadas numa vasilha grande de ágata. Na sacola em que colocará a vasilha, já tem pão, cerveja, guaraná para as crianças, bolachas e alguns salgadinhos preparados na noite anterior: coxinhas, croquetes, bolinhos de ovo… O coração infantil de Bel, minha irmã, e meu estão aos pulos. E não é pra menos, vamos brincar o carnaval. Mamãe leva a sacola com guloseimas, e nós dois saquinhos de confetes, serpentinas, seringas em forma de frutas que serão enchidas com água. Eu vou de pirata e ela, de cigana. Primeiro, passaremos num salão, lá na Lapa, na Rua Dronsfield, e vamos pular até cansar. Quando acabar a matinê, mamãe nos levará para a Avenida São João, ali perto do Largo do Paissandu, onde nosso, pai nos espera, guardando lugar numa pequena arquibancada de seis degraus, quase na esquina da Rua Dom José de Barros.

Com seu inseparável chapéu de feltro marrom, o altivo Benedicto Faustino conversa com um amigo da Casa Verde, ferroviário como ele. Nos vê chegando e sorri. O amigo de papai apresenta a esposa, seus seis filhos e dois netos. Todos já estão ali na arquibancada. O mais velho com uma ampola na mão espirra em nossa direção um borrifo perfumado que me atordoa… faço careta e todos riem… é meu primeiro contato com o gelado e delicioso lança-perfume. Pouco a pouco vamos percebendo por toda a arquibancada famílias e mais famílias. A gente adora o Cordão do Vai Vai, mas o amigo de meu pai torce pela Escola de Samba Unidos do Peruche. Conta que o pai dele fez parte de um cordão que tinha o nome pomposo de Grupo Carnavalesco Barra Funda, de seu Dionísio Barbosa, que originou o Cordão do Camisa Verde. A esposa dele é meio aparentada da Madrinha Eunice, da Escola de Samba Lavapés, lá da Aclimação. “Sério?”, indaga minha mãe. Conta, então, que elas devem ser primas, pois a venerável senhora também é sua tia, que teria vindo de Piracicaba para São Paulo e ajudou a fundar essa escola. O melhor amigo de papai, o Seu Correia, chega com a família também carregando sacolas, que, além de acondicionar os quitutes, servem para guardar lugar para as irmãs e algumas amigas da esposa dele, que virão quando saírem do trabalho em casa de famílias de Higienópolis, Pacaembu e Perdizes. Ele mora em Guarulhos, bem pertinho da estação de trem de Vila Augusta, onde só residem ferroviários da Sorocabana. “Nada de Vai Vai, nem de Camisa Verde, nem de Peruche. Batuque de verdade é o da Nenê de Vila Matilde”, ele berra, como se estivesse bravo, enrolando as pontas do longo bigode de português. Lá embaixo, no Vale do Anhangabaú, a multidão, composta na maioria de negros e negras de todas as idades, se reunia para formar o seu cordão. Era um fascínio para meus olhos infantis, pois lembrava os contos de fada que eu ouvia e já começava a ler: tinha reis, rainhas, príncipes e princesas e uma infinidade de nobres, as damas da corte, e os elegantes rapazes da ala de passo marcado. Além do Vai Vai e do Camisa Verde, vi também o Fio de Ouro e o Paulistano da Glória. Não sei se tinha outros cordões. Sei que o símbolo maior desse tipo de entidade era o estandarte, sempre levado por uma moça linda que punha meu coraçãozinho de menino aos pulos. Mas nem passava pela minha cabeça inocente a possibilidade de aproximação de uma porta-estandarte, principalmente por causa dos balizas, que giravam intensamente nas mãos aquele pedaço de madeira roliço e enfeitado, também chamado baliza, antes de o lançarem para bem alto, apanhá-los no ar e continuar girando. Que saudade do Genésio, todo de cetim, blusa, capa e calças amarradas logo baixo dos joelhos e meiões e sapato com uma grande fivela, executando mil malabarismos. Bem pertinho de nós, entre a passagem de uma agremiação e outra, chegava aos nossos ouvidos, vindo das galerias da Rua Dom José de Barros, uma batucada bem cadenciada. O bumbo batia forte e o repique da caixa era lento, quase chorado, do tipo que o dramaturgo Plínio Marcos chamaria de “samba de trabalho, durão, puxado para o batuque”. Uma voz de lamento, cujo dono só fui conhecer muitos anos depois, entoava: “Na morte de Chico Preto houve muita tristeza no arraial / Ele era cumpadre de todos, não havia criança pagã no local…”. Era Geraldo Filme de Sousa com suas suíças já brancas e ideias negras transformadas em enredos do Paulistano da Glória e do Vai Vai. Não muito tempo depois, já adolescente, o encontrei possivelmente na mesma galeria, junto à mesma mesa repleta de garrafas de cerveja, em torno da qual outros personagens da história do carnaval paulistano faziam vibrar seus instrumentos e faziam coro: Seu Zezinho do Morro, Talismã, Zeca da Casa Verde, Ideval, Sílvio Modesto, Lagrila, Feijoada, Jangada… muitos outros estavam em pé, em volta, reconheci Seu Nenê da Vila Matilde, Seu Carlão da Peruche, Seu Juarez da Mocidade, Seu Pé Rachado e o Príncipe, um dançarino de gafieira como jamais vi outro igual. Mas tinha também um negro tão magrinho e tão alto, quanto o Príncipe, que eu reconheci ser o mestre-sala que me emocionou junto com a porta-bandeira da, agora, Escola de Samba Camisa Verde e Branco – principal adversária da minha amada Vai Vai –, executando os mesmos passos elegantes que, naquele momento, fazia ali na galeria: “É o Delegado… ele é lá da Mangueira”, alguém me esclareceu. Nunca mais esqueci. A voz chorada de Geraldo agora estava cantava: “Eu era menino / Mamãe disse: vamos embora / Você vai ser batizado / No samba de Pirapora…” Ali, em torno daquela mesa estava grande parte da alma do samba paulistano.

Por isso, a chuva que escorre pela janela me leva de volta à arquibancada da São João, e meus olhos marejaram diante da lembrança daquelas famílias todas, das já idosas tias quituteiras, dos senhores de chapéu de feltro que protegia a cabeça da garoa, dos cordões, dos blocos, das escolas de samba, dos balizas, das alas de passo marcado, das damas, dos reis, das rainhas, das cortes… alguns tripés, um ou dois carros alegóricos, cores, fitas, ráfia… tudo isso e muita, muita alegria! Quando o samba passou para a Avenida Tiradentes, com as arquibancadas e as decorações que demoravam semanas para serem montadas, atrapalhando o trânsito, parecia que nosso carnaval tinha atingido seu ponto máximo de gigantismo. Agora já cobravam ingressos para assistirmos aos desfiles, mas eram preços acessíveis, todos podíamos e fazíamos questão de pagar, levar nossas sacolas de guloseimas e bebidas, guardar lugar para familiares e amigos, organizar torcidas. Eu me tornei jornalista e, anualmente, lá estava eu cobrindo o espetáculo e ajudando a organizar o bloco O que Restou de Nós, formado elo pessoal da imprensa que trabalhava na avenida. A gente entrava para brincar na terça-feira, sempre acompanhado por parte da bateria da escola que havia acabado de desfilar. Aí, tiveram a ideia de construir a Passarela do Samba – tristemente batizada de Sambódromo –, no Anhembi. E a festa de carnaval atravessou o Tietê. Do lado de cá, não se vê um único confete no chão. Se não ligar a TV e ver o anúncio dos desfiles pela Globo, a gente nem sabe que é carnaval. A coisa de brincar virou coisa de assistir. Um Big Brother que dura quatro dias – sexta e sábado para São Paulo e domingo e segunda para o Rio, com uma ou outra reprise –, aí vem a apuração e os “comedores de carniça” da imprensa sensacionalista torcem para que haja pancadaria, para terem o que falar. Porque “tudo bem” não é notícia. A nostalgia, a chuva e a lembrança de Geraldo Filme trouxeram ao meu coração e à minha mente o desfile de 1980 da Paulistano da Glória, cujo enredo foi “Que gente é essa?”. Era uma exaltação ao nosso povo negro, nossa forma de ser, de sentir de pensar e de fazer. A memória já não me ajuda, mas acredito que o samba dizia mais ou menos assim: “Que gente é essa de pé no chão que tem no canto sua forma de expressão… — e mais à frente concluía — …e hoje essa gente sofrida, vem dos morros e favelas, traz o seu canto divino que ilumina a passarela”. A comissão de frente era formada por lindas meninas negras, descalças, com um longo vestido branco, feito com fartura de tecido bem leve, que deveria esvoaçar enquanto caminhavam. Mas despencou um temporal e o pano grudou no corpo das garotas, que passaram, encorujadas, tremendo de frio. E a escola caiu. Assim como ocorreu com o antigo cordão, depois escola de samba, do coração de Geraldo Filme, naquele fatídico 1980, a minha alegria carnavalesca, nos últimos anos, também foi arrastada enxurrada baixo por esse temporal que tomou conta do carnaval de minha cidade. Hoje se fala até em torcidas que combinam, pela internet, de se confrontarem, assim como fazem com o futebol. Aos poucos, o nosso carnaval abandona as páginas culturais para se transformar num farto celeiro para o noticiário policial. O que será que vem depois?

Fotos  home – Wagner Celestino

Arte:  Pakuera

 

Comments: 3

  • Redação kultafro
    Redação kultafro fevereiro 08, 2013

    Não posso deixar de comentar este artigo do amigo, sensível e sempre atento ao que acontece no entorno, dentro e fora por onde anda o nosso povo. Essas histórias contadas sabemos onde começa mas não sabemos aonde termina depois de lê-las.Torna-se infinito como conhecimento e valor total à vida. Acho que vivi mais!!! Oswaldo, muito obrigado…LP

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    • Oswaldo Faustino fevereiro 09, 2013

      Pois é, Luiz Paulo. Ainda bem que temos boas lembranças, pois inventaram um “carnaval” que não consegue mais me alegrar. Fico pensando nessa coisa de terminar o desfile e jogaram o povo na marginal. Ou entra no ônibus, ou pega seu carro… se comprou ingresso vai para a arquibancada e é obrigado a consumir o que os contratos da Prefeitura te obrigam, caso contrário se fica perambulando num lugar que não tem um único bar sequer, onde os sambistas possam se reunir. Em compensação, enquanto as primeiras escolas faziam seu espetáculo global na Anhembi, pude ver um verdadeiro espetáculo do nosso povo, no centro da cidade: a passagem do Bloco Afro Ilú Obá De Min… depois, no Largo do Paissandu, teve tambor de criola… e eu pude voltar a viver carnaval…

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  • Paquera fevereiro 09, 2013

    Foi um imenso prazer ler essa cronica, revive em memória a minha infância, a minha adolescência, e a minha convivência com o samba da São Paulo, não acreditei na passarela quando anunciaram, e hoje não acredito no Sambódromo, palco do Carnaval Popular Paulista, um cenário para transmissão televisiva, não vejo nesse lugar o consagrar do verdadeiro espírito de Momo, não vejo as Comunidades, as famílias, os amigos. Sinto, confesso, saudades de usar as cores da minha escola querida, mas não tenho nenhuma vontade da atravessar a marginal, para ser tratado como marginal.
    Obrigado Amigo Faustino, por presentear um saudoso sambista com uma história de vida e alegria…bom carnaval…mas vá de galocha…

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