Lá Vêm as Negras do Ilê Aiyê

Por Pedro Neto e
Sandra Campos

O mito da democracia racial, ao devorar os elementos da cultura negra, devora também
o próprio negro, seu produtor. Tanto é que, apesar de o movimento negro brasileiro,
nesta década, assumir a forma de ONGs para tentar preencher em parte o vazio deixado
pelo Estado, os negros brasileiros continuavam desassistidos, seja na saúde, seja na
educação, seja na moradia”.  Teresinha Bernardo

A Campomare Produções, responsável na produção executiva de apresentações do
Bloco Afro Ilê Aiyê em 2007, 2010 e 2012, na cidade de São Paulo, visitou a sede
da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, no dia 10 de janeiro de 2013,
em reunião com o presidente Antônio Carlos dos Santos Vovô e o diretor Vivaldo
Benvindo dos Santos, na Senzala do Barro Preto, Liberdade, Salvador, Bahia e
participou da 34ª Noite da Beleza Negra, no dia 12 de janeiro de 2013.

Vivaldo, Pedro Neto, Vovô e Sandra Campos

 Em um espaço de 5400 m², a sede do Ilê Aiyê, situada na Rua do Curuzu, 228, possui

inúmeros espaços para o desenvolvimento diário de ações de cultura e educação negra.
Ao entrar, vimos um amplo salão com um palco ao fundo. Nos andares superiores, estão
as salas da administração, sala de reunião e espaço para troféus. Nos andares inferiores,
está a Escola Mãe Hilda criada em 1988, por Mãe Hilda Jitolu, matriarca e “guardiã
da fé e da tradição africana”. Encontramos também uma biblioteca, salas de costura e
tecelagem e um amplo estúdio de gravações que será inaugurado neste ano.

Biblioteca

Nas paredes e corredores de toda a sede, há cartazes, fotografias, frases e os famosos
tecidos do Ilê Aiyê dos carnavais dos anos anteriores, assim como, observamos na pele
e na fala de seus integrantes, sabedoria, dignidade e identidade negra dessa comunidade,
fundada em 1974.

No ano em que a lei 10.639 completa 10 anos, o Ilê Aiyê completa 39 anos de trabalho
assentados na negritude que segundo Césaire pode ser definida em três palavras:
identidade, fidelidade e solidariedade. O Professor Kabengele Munanga, a partir
de Césaire escreve: “A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a
condição de negro, em dizer, cabeça erguida: sou negro. A fidelidade repousa numa
ligação com a terra-mãe, cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade.
A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros
do mundo, que nos leva a ajuda-los e a preservar nossa identidade comum”. Antônio
Carlos Vovô completa: “O Ilê Aiyê não é só uma banda de apresentação”.

Além da escola e das oficinas para crianças e jovens, o Ilê Aiyê constrói seu carnaval
anual a partir de intensa pesquisa sobre o tema escolhido para cada ano. 2013 será o ano
da Guiné Equatorial – da herança pré-colonial à geração atual. A partir deste estudo, são

confeccionados o caderno de educação para o projeto de extensão pedagógica e também
o tecido estampado com signos, símbolos e significados daquele carnaval.

Capa do Caderno de Educação de 2009

O trabalho desenvolvido na Senzala do Barro Preto é transversal, inclui e ressignifica as
questões da cultura negra em todas as suas esferas. Essa experiência modelo e inovadora
deveria balizar a construção das políticas públicas para a população negra brasileira.

Sábado, 12 de janeiro, ao subirmos a ladeira do Curuzu, encontramos homens,
mulheres, crianças, jovens, adultos, em sua grande maioria, negros e negras. Na
caminhada íngreme, avistamos a multidão, barracas de bebidas e comidas montadas nas
portas das casas. Às vinte horas, automóveis já não sobem mais, há grupos de jovens
conversando ao som de músicas populares. O cheiro de alegria e amor invade o bairro
da Liberdade. É a 34ª Noite da Beleza Negra do Ilê Aiyê, com cerca de 150 pessoas
envolvidas diretamente na produção.

Em frente à sede da Associação, entregamos nossos ingressos e entramos no mais
belo dos belos templos negros do Brasil. Sentimos como se estivéssemos embaixo do
Baobá, ali o passado se faz presente e alimenta o futuro. Vimos um mercado negro
contemporâneo e uma ponte assentada por Obalúàyé e Òsun.

Com transmissão ao vivo pela TV Educativa, dentro do terreiro decorado com as
paredes coloridas com tecidos e luzes vermelhas, amarelas, pretas e brancas, a Banda
Aiyê se apresentou e, em seguida, a cantora Claudya Costta.

A apresentadora e educadora Arany Santana declama: “34ª Noite da Beleza Negra”.
Ao som da Banda Aiyê o público abre caminho para a entrada com elegância e primor,
das 13 negras candidatas à Rainha da Beleza Negra 2013, pré-selecionadas entre 60
candidatas, vestidas cada uma com 6 metros de tecido, em frente a elas, um guarda sol
indicando que aquelas que ali passaram são, de fato, nossas rainhas contemporâneas.
Nossa realeza não morreu na chibata do escravocrata branco e muito menos na caneta
brilhante do racista.

“Lá vem, lá vem as negras do Ilê Aiyê …”

Em seguida, o palco é preenchido por cerca de 25 dançarinos e dançarinas, com os
figurinos do carnaval de 2013. Nossos olhos, ouvidos, narinas e bocas param ao ver a
grandiosidade daquela energia, daquela sabedoria, daquela performance arrebatadora.
Estatelados no tempo e no espaço enxergamos o corpo de baile em perfeita sintonia com
a música, com a letra, com o ritmo, com o público. Os dançarinos estão flutuando no ar,
como um Ògé, pássaro divino, como o lekeleke e suas penas brilhantes e vivas.

O competente corpo de jurados está formado, entre eles: Amélia Vitória de Souza –
professora da UFBA, Célia Sacramento – Vice-Prefeita de Salvador, Dr. George Luis
Costa, Paulo Borges – Diretor Criativo da SP Fashion Week e Ana Meire Aguiar.

Cada uma das candidatas se apresenta acompanhada pela Banda Aiyê, ao som de uma
das canções do Ilê Aiyê. Cada uma com seu figurino, com sua empatia. Para algumas há
na plateia, faixas, cartazes e alegria de seus torcedores.

Duas horas depois, Sandra de Sá sobe ao palco e apresenta seu swing negro. Ela está tão
à vontade que desce ao público duas ou três vezes durante o show.

Já passa das duas horas da manhã e é chegada a grande hora. Em terceiro lugar, Katia
Silene de Castro, em segundo lugar, Daniele Nobre Nascimento e, a Deusa da Beleza
Negra de 2013, Daiana dos Santos Ribeiro. Além de troféus, um figurino do Ilê Aiyê,
cada uma das três, recebe um prêmio em dinheiro.

Em recente matéria de Lucas Caldas e André Santana sobre o homicídio contra
mulheres e de acordo com o Mapa da Violência 2012, produzido pelo Instituto
Sangari e publicado pelo Ministério da Justiça, a socióloga Vilma Reis fala sobre
essa questão na Bahia, oitavo estado em número de homicídios contra mulheres: “No
âmbito da cultura, vemos a população exposta a produções culturais e programas
sensacionalistas que contribuem para a criminalização da população e exacerbação
da sexualidade. Obviamente sabemos que estes programas também acontecem no Sul
e Sudeste, mas os abusos que observamos no Norte e Nordeste chegam a ser mais
violentos. Até por serem lugares secularmente abandonados”.

Não é chegada a hora, do poder público olhar de fato para a cultura negra, para a Noite
da Beleza Negra, com outro viés? Não apenas nos anos eleitorais? Investir nessa ação
de valorização da mulher negra, replicar o formato bem sucedido em outras partes do
Brasil?

Enquanto eles não chegam, o “Perfil Azeviche” se prepara para gravar o DVD de
comemoração dos seus 40 anos de história no dia 31/01/2013, na concha acústica do
Teatro Castro Alves.

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