Outras Impressões – Samba da Vela

Outras Impressões – Samba da Vela

 

 

 

Por Leno F. Silva

 

Toda segunda-feira, há doze anos, repete-se um ritual na Casa de Cultura de Santo Amaro: a apresentação festejada da Comunidade Samba da Vela. Iluminados sob a chama ligeiramente amarelada os integrantes desse autêntico grupo musical dão boas-vindas ao público e começam a apresentação com a música símbolo dessa iniciativa que atrai dezenas de espectadores no primeiro dia útil da semana.

Sem qualquer suporte de equipamentos, a roda de samba rola com o gogó dos intérpretes e o entusiasmo do público, que canta junto e sabe as letras de cor. Sentados ou em pé, não dá para ficar imune ao desfile vocal da trupe que sabe muito bem animar a festa e cativar cada um dos presentes.Na semana passada a grande surpresa deu-se pela presença de vários autores que foram convidados a defender suas próprias autorias em formato acústico, com auxílio dos Orixás e dos amigos que festejaram euforicamente ao final de cada apresentação. E um destaque que surpreendeu a todos foi a interpretação de uma menina de cinco anos que cantou pelo menos duas músicas com total desenvoltura e muita personalidade.O clima descontraído misturou piadas, presepadas, desafios semelhantes aos de repentistas, e uma seleção de quase duas dezenas de músicas que retratam o cotidiano de muitos daqueles que ali estavam. Enquanto uns enfrentam problemas e dificuldades do cotidiano buscando ajuda de psicólogos ou psicanalistas, tive a impressão de que a rapaziada da comunidade usa o samba e a música para colocar para fora alguns fantasmas e dar vazão a alguns dos problemas do dia a dia. Graças à batuta do samba, qualquer dificuldade se transforma em canção e, rapidamente, ganha a adesão da plateia.Falando em plateia, a diversidade impera por lá. Gente das mais diferentes origens, oriundos de inúmeras regiões da cidade, e que têm em comum o apreço pelo samba feito para ser ouvido e apreciado por qualquer um de nós. Aquela atmosfera também me remeteu ao espírito de vida comunitária, por meio da qual as pessoas se relacionavam, se conheciam e alimentavam relações de confiança entre todos.Era impossível ficar parado ou de boca fechada durante as apresentações. Intencionalmente, na entrada, todo mundo ganhou o livreto com as letras das músicas para cantarolar na hora certa e no tom possível. Naquele salão, postados em círculo, todos se confraternizam com as músicas que falavam daquilo que é tão precioso para todos nós: a vida sem rodeios e na linguagem que o povo conhece e gosta de manifestar. Longa e bela jornada à Comunidade Samba da Vela.

Tomo a liberdade de reproduzir aqui a última estrofe do samba, de autoria de Paquera e Edvaldo Galdino, que abriu os trabalhos e é o hino de saudação a essa iniciativa muito original: “A luz do samba reluz / Conduz à inspiração / Seduz, a todo induz / A união de irmãos / Queremos um canto forte / Pra ver o samba vencer / O Samba da Vela / Está esperando você.” Não deixe de comparecer. É só chegar. Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço:
Comunidade Samba da Vela
Todas as segundas-feiras, na Casa de Cultura de Santo Amaro, a partir das 20h45
Praça Francisco Ferreira Lopes, 434, São Paulo, SP,
Tel.: 11 – 3106.8569, contribuição voluntária de R$ 5,00

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