Dois pactos conectados pela arte contemporânea

Duas Américas, duas histórias…

Por Luiz Paulo Lima

           Moisés Patricio \ Divulgação                                       Najee Dorsey\divulgação

Duas Américas, duas histórias onde o caos, singularidades e as sutilezas das grandes cidades tornaram-se a principal matéria prima para dois jovens artistas , Najee Dorsey, nativo de Arkansas com raízes em Lousiana e Moisés Patrício natural da zona sul de São Paulo, ambos com vinte seis anos de idade e  não se percebem como representantes da classificada “arte urbana” tão generalista, cuja a expressão surge inicialmente associada aos pré-culturalistas como Willian Morris, John Ruskin e posteriormente ao urbanismo culturalista de Camilo Sitte e Ebenezer, termo usado para identificar o “refinamento de determinados traços executados pelos urbanistas ao “desenharem” a cidade”.

Esses dois urbanistas londrinos representantes da era vitoriana, defendiam em 1884 o desejo não realizado de criar objetos belos a preços acessíveis — ou mesmo de graça — para as pessoas comuns, enquanto que o resultado na vida real era sempre a criação de objetos extremamente caros para uma minoria óbvia. Duas figuras onde suas teses e utopias repercutem até os dias de hoje.

Dorsey e Patrício são adeptos do conceito da “ arte e a cidade” , uma arte pública flexibilizada no sentido figurado, ao mesmo tempo se atiram na função de empreendedores. Ambos se equilibram pelo “fio da navalha”, ténue  sutil e trágica, que por vezes divide o artista do mundo dos negócios.. Dorsey afirma que “você tem que escolher entre a estabilidade mental necessária para o lado dos negócios e o caos criativo necessário para criar arte”. Descobriram desde pequeno que há muitas vantagens nestas duas funções.

Patrício teve uma infância tranquila em uma comunidade no Brooklin Paulista, região de Santo Amaro na zona sul da cidade. Aos nove anos iniciou o  contato com as artes em particular a pintura. Como todo aprendiz de talento teve um mestre de ofício como inspirador e referência no desenvolvimento da sua expressão artística.

O argentino Juan José Balzi, contratado na época pela Secretária do Bem Estar Social, chega da Europa em 1994 para oferecer oficinas de pintura e grafite. Balzi na função de arte educador saiu da sede da instituição, região central da cidade para trabalhar na comunidade onde Patricio viveu até a desocupação e a consequente expulsão do local, para dar hoje dar lugar à sede das Organizações Globo de Televisão.
Tudo começou em Santo Amaro e depois Santro André, uma  cidade da grande São Paulo. Local escolhido a revelia dos moradores despejados, por tais  cisrcunstâncias passaram a viver. Balzi também escolheu esse novo local para continuar os trabalhos com aqueles garotos e garotas que aprendeu a conhecer, educar e se reeducar. Atendeu segundo Patrício, mais de mil jovens por doze anos consecutivos.

Obra de Moisés Patrício\ divulgação
O então aprendiz  afro-brasileiro  percebeu desde cedo esta oportunidade, se dedicou às atividades dos programas, onde estudou a história da arte, participou de visitas monitoradas à museus e galerias, observou de perto as esculturas de Boticceli , Victor Brecheret entre outras tantas obras espalhadas pelas ruas e praças da cidade. Simultaneamente produziu murais, buscando re-significar a história da arte vivida e aprendida, até conhecer a pintura expressionista.

Dorsey, começou a pintar aos cinco anos de idade, vendendo seus primeiros desenhos à sua mãe para comprar doces.Este artista nato também não esqueceu suas lembranças de infância no delta do Mississípi,na arquitetura com influências francesas, músicos de Blues e  famílias que são reproduzidas e impressas nas suas telas muito coloridas, usando técnicas mistas.

Obra de Najee Dorsey\divulgação
O seu visível esforço  e dedicação foi recompensado por  uma bolsa parcial para a Academia de Arte de Memphis, mas foi forçado a desistir por não poder pagar os valores complementares. Por conta de todas as dificuldades se considera auto-didata.

Em 2005 tomou a decisão e se comprometeu a fazer arte em tempo integral. A sua primeira obra vendida foi a tela intitulada “Orientação no tempo da ignorância”, para o seu amigo e mentor Najjar Abdul-Musawwir, um artista de renome internacional, professor titular da Escola de arte Desing na Southern Illinois\University Carbondale.

Quando não está criando impressionantes obras com os estudantes universitários de arte, Najjar pode ser encontrado com jovens “ desengajados” ajudando-os a descobrir suas vozes criativas  Ouviu desses jovens por diversas vezes a “arte salvou minha vida”. Com esse trabalho duplo como professor e cidadão, o artista se auto- identifica como expressionista abstrato e abstrato.

Patrício descobriu aos 17 anos que não precisava mais das palavras para se comunicar com as pessoas: “é isso que eu quero para minha vida” concluiu. A sua primeira exposição importante foi na Pinacoteca do Estado, um painel a pedido do então diretor e artista plástico Emanoel Araújo. Considera-se sempre um aprendiz, adora trabalhar a quatro mãos em intervenções pela cidade.

Começou com o desenho espontâneo  passando pela pintura, escultura, xilogravura, litogravura, grafite, instalações, videoarte e cinema experimental. Desde cedo teve uma noção de mercado no mundo das artes e suas dificuldades. ”O artista tem de saber divulgar, escoar a produção, lidar com as críticas, galeristas, enfim saber também vender seus próprios trabalhos”.

Obra de Moisés Patrício\ divulgação
Hoje Patrício é representado por duas importantes  galerias; “Mônica Figueiras” a mais antiga da cidade e a “Pararelo Gallery” que além de uma vocação internacional, compõem em seu acervo uma diversidade das expressões plásticas, e principalmente trazendo ao mercado, jovens e renomados artistas.

Este reconhecimento está baseado nas múltiplas facetas do artista, onde é capaz de usar um spray, e a corporalidade servir de base para os largos gestos que expressam Tags,Highlines,Bombin,Crew, e logo em seguida com um pincel molhado de aquarela, desenhar com a levesa desta linguagem a mesma cidade bucólica e a monotipia esquizofrênica nela existente  com toda a delicadeza que a plataforma escolhida requer. Entende a escolha do suporte como potencializador do discurso.

Dorsey, em 2000 abriu junto com a esposa Setéria, também artista plástica, uma galeria de arte, loja de livros usados e um café em Blytheville, Arkansas.Usou esta plataforma para lançar sua carreira artística. Transformou-se em um colecionador, acumulou mais de duzentas obras de vários artistas incluindo Louis Delsarte, Ringgold Fé, Nash Woodrow, Hunt george, Majjar Abdul Musawwir, Archie Mason entre outros. Todos artistas afro-americanos contemporâneos.

Dorsey escolheu viver cruzando entre a “arte” e o “empreendedor” , cores e números, usar os dois lados do cérebro o tempo todo. Tudo para entender o porque das portas se fecharem  para as artes negras na América. Transformou seus entendimentos sobre esses fatos em uma mais nova missão como resposta, criou e fundou em 2010 a BAIA – Rede Social de Arte Negra na América, com objetivo de conseguir recursos para os artistas afro-americanos visuais, colecionadores, líderes da indústria do setor e entusiastas das artes.

Obra de Najee Dorsey\ divulgação
BAIA se tornou líder das redes sociais global, tem um alcance de quinhentos mil acessos e continua em crescimento. As pessoas estão se juntando hora a hora, o telefone não para de tocar, enxergando neste projeto uma excelente oportunidade .Essa demanda gera naturalmente conflitos em relação ao tempo e no desejo.Você tem o desejo e não o tempo para satisfaze-lo. A Arte negra na América tem que crescer. Para Dorsey trata-se de um dilema agradável, um bom problema.

Este jovem artista afro-americano acredita que seguindo em frente, estará mais comprometido do que nunca com a missão de cultivar uma comunidade que tem interesse em artes e cultura – um público que está disposto a explorar o conteúdo disponibilizado no espaço virtual – um público que está mobilizado e preparado para ter essas novas experiências e realmente desfrutar “a arte de viver criativamente”.

Patrício pensa um pouco para afirmar que a única coisa negra no seu trabalho é ele.Também confessa que nos mesmos trabalhos tem algo que pulsa com a ancestralidade, tanto na visualidade como nos materiais usados. Afirma que nunca foi pautado por ser negro ou artista.Mas quando entrou no Museu Afrobrasil isto ficou evidenciado.”A minha mão afro-brasileira” está lá, afirma!!!

Acostumou a lidar com o caos, consegue fluir mais do que outras pessoas que não tiveram o mesmo histórico social, “bora o caos para trabalhar pra mim”.No caos as pessoas perdem a identidade, pra ele ao contrário, se torna mais familiar. Com relação às galerias, confessa que tem mais problemas com pessoas do que com elas. Conta que são frequentes pessoas ligarem para a galeria que o representa, questionando porque  tem Moisés Patrício e vocês não conseguem me receber. Eu estudei na FAAP, tenho um trabalho consistente, etc. etc…

Patrício insiste em afirmar que o seu trabalho nunca foi pautado pela sua condição social ou étnica racial e sim pela força da imagem, pelo diálogo estético definido pela pauta da cidade. A classificada “Arte Urbana” é datada. Prefere a “ Arte e a cidade” na forma atemporal. Nasceu na era das novas plataformas de comunicações.

As  redes sociais  tem servido como reparadoras de danos. Hoje nos conectamos com o mundo através delas , as questões mais importantes não são mais dos bairros, acabaram os territórios geo-políticos definidos, as periferias passam a ser centros, a imagem não precisa de tradução. As pessoas sentem ou não sentem.

O futuro é estúpido!!!. Afirma que tem uma visão pessimista do futuro. Essa ilusão é  irônica, sarcástica e cruel. Perspectiva do amanhã não existe. O agora é fundamental…l!!! Eu faço parte de uma geração muito exigente e imediatista. Sou expressionista na vida, carregado de gestos, emoções escolhidas no aqui e agora.

..

.

.

Luiz Paulo Lima

Luiz Paulo Lima

Jornalista, BK4 Comunicações

Comments: 6

  • adriano dezembro 14, 2012

    Muito a matéria… qual e o endereço virtual da Baia?

    abços

    Reply
  • Moisés Patricio dezembro 15, 2012

    Prezado Luiz

    Quero externar os meus mais sinceros agradecimentos pela bela reportagem inserida no Site dia 12 de dezembro de 2012.

    Reportagem das mais comoventes, a maneira como foi abordada os artistas, as conexões poéticas, uma verdadeira homenagem numa linguagem que traduz, além de uma matéria jornalística, a alta sensibilidade de seu autor com os dois artistas, traduzida em palavras de intimidade, carinho e muito respeito.

    Receba e transmita a todo o corpo editorial deste site, o meu abraço amigo e reconhecido, juntamente com o meu agradecimento renovado, que nos dá a certeza de que o meu trabalho, dentro da cidade e no mundo faz muito mas sentido agora.

    Atenciosamente

    Reply
  • Lilian Batista dezembro 15, 2012

    Excelente matéria.A valorização da arte na interação das redes de relacionamento.Maravilhoso!

    Reply
  • Samuel Kassapian Junior fevereiro 22, 2013

    Adorei a matéria, foi ótimo conhecer um pouco mais desse grande artista Moisés Patrício, fiquei emocionado com o que li, parabéns a todos.

    Reply
  • Fábio Luis Siquera Miranda março 19, 2013

    Espelhos para a juventude periférica.

    Reply

Leave A Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *