Feira Preta, inova com Seminários em 2012

Comunicações e mídias negras, debatidos na Feira Preta 2012.

 

Por Luiz Paulo Lima

A Feira Preta inovou como sempre, trazendo á luz este ano reflexões sobre vários temas de interesse da população negra, e brasileira apresentados nos  Seminários  –  Boas Práticas na Produção Cultural Negra na Perspectiva da Economia Criativa, Cultura e Negócios.

Um dos temas versou sobre “Mídias Negras” e contou com convidados muito interessantes e ilustres. Vários  “expertises” foram apresentados  através dos relatos , que servirão de referências para o setor.

È sempre bom contextualizar quando fazemos um recorte temático, com referências históricas. A  Imprensa chega ao Brasil com a vinda da Família Real, que foge de Portugal  pressionada por Napoleão  em 1808.

Já em 1833 os negros por aqui, já editavam seus periódicos, dando visibilidade ás questões étnico-raciais, através de uma imprensa alternativa.

A prova disso foi o Pasquim (jornal ou panfleto difamador) “Homem de cor”, que publicou textos datados  denunciando violências e discriminações raciais.

Nestes 179 anos de Imprensa Negra no Brasil, em nenhum momento deixamos de verificar  a sua atividade intensa como  meio de expressão e liberdade de opinião. Através destes periódicos,  pasquins, jornais, revistas e hoje nas redes sociais, podemos entender a tese do Diretor do Museu Afrobrasil,  Emanoel Araújo afirmado quando do nascimento da Instituição: “Que brasileiros fomos , que brasileiros somos e que brasileiros queremos ser”.

A Educação para a Diversidade, tem proporcionado mudanças na sociedade brasileira. È bem verdade que ainda longe das metas estratégicas em curso , pautados pelos movimentos sociais negros, Mas não resta a maior dúvida que o conhecimento e acesso às inovações tecnológicas foram entendidas como oportunidades.

Uma terça-feira 13,, noite chuvosa em São Paulo, com o trânsito daquele jeito “irritante”, os palestrantes chegaram pontualmente e mostraram para o público presente na “Casa das Caldeiras” o quanto as comunicações  são importantes como mola propulsora do desenvolvimento.

Diretamente da Bahia, Paulo Rogério relatou que o nordeste está tudo dominado. A Mídia étnica\Correio Nagô nasceram na comunidade, bem na base da pirâmide social .

Paulo Rogério – Correio Nagô/divulgação

Enxergou um nicho de mercado que hoje chega á mais de um milhão de pessoas, onde  o Portal interage e responde as demandas, usando as tecnologias da informação, inovações tecnológicas e o mais importante, cumplicidade e reciprocidade existente como marca empresarial de todas as iniciativas.

Da Bahia para o Brooklin em Nova York, uma potência de mulher, muito jovem e talentosa. Me refiro a Cori Murrey, Diretora de Entretenimento  da Revista Essence.

Demonstrou o quanto as teses estão corretas, de que a mulher está muito a frente  dos homens no mundo, também neste segmento.

Sempre com um bloquinho na mão, anotando tudo que vê, com disciplina, e percebe-se metodologia, com a intenção de aproveitar cada segundo da experiência que está vivendo no momento.

O grupo Essence existe desde 1969, portanto hoje com 44 anos de idade,de prestações de serviços, entretenimento e negócios  para principalmente a população negra no mundo. Criada para a mulher afro-americana , na faixa dos 19 aos 49 anos de idade, atingindo nos dias de hoje  8 milhões de leitores, sendo que 72% como  assinantes.

Muitos dados da sua história pessoal e profissional foram ditos e destaco um aspecto que chamou muito a atenção de todos , quando perguntada sobre como consegue aproximar grandes empresas para os projetos do Grupo Essence.

Respondeu com muita firmeza e convicção, que tudo começou pela conscientização da população negra enquanto consumidor. “Se consumimos Gutti, Coca-Cola, Mac Donalds, entre outras, eles tem obrigação de anunciar nos nossos projetos, sob a pena de boicote dos seus produtos”.

Alexandre de Maio, artista dos quadrinhos, hoje sócio da “Catraca Livre”, proporcionou momentos lúdicos na sua fala, onde os heróis dos seus desenhos  nascem nas periferias , onde o filho grita e  a mãe não ouve.. Desde muito jovem não se identificava com os personagens e histórias clássicas dos heróis desenhadas nos gibis.

Sentia que precisava criar um novo olhar, inspirado  naquilo que vivia cotidianamente, pegando o “busão”, Rap, violências e resistências.

Buscou uma linguagem nos traços, cores e penumbras, sensações verossímeis  ao sentimento de quem precisa voltar para casa na calada da noite nas periferias brasileiras.

Como artista e empreendedor , já tem o reconhecimento no mercado pela sua originalidade e talento criador. Frisa que “dá um passo de cada vez”. A “Catraca Livre” é um projeto  de jornalismo comunitário que divulga atividades culturais gratuitas na cidade e regiões metropolitanas na cidade de São Paulo.

Pelas  pesquisas de audiência e interatividade,  já ultrapassou grandes potências de comunicações do país.

Encerrando as comunicações da noite , o Publisher  Maurício Pestana diretor da única revista impressa, distribuída em bancas e por assinantes do país. Esclareceu o momento que vive  A Revista Raça  Brasil, que comemora 16 anos ininterruptos , voltada para  os negros como sujeito midiático no jornalismo e na publicidade.

Pestana, colocou o quanto  é difícil ser a única revista deste segmento e o esforço para atingir e conciliar as metas comerciais do empreendimento e dar respostas as múltiplas demandas do público alvo .

Mostrou a sua performance, para colocar a revista  em uma editora que responde por mais de 100 títulos populares, cuida do marketing, deu um toque personal ao projeto editorial, com foco principalmente em educação.

Se orgulha de ter pautado a discussão e toda a pressão para a aprovação da lei 10639, que obriga o ensino sobre a história das  Àfricas  e dos Afro-descendentes.

Concluindo acredita que este projeto de revista impressa pode ter uma longevidade, mas não descarta a possiblidade de estar em outras plataformas e criar novos produtos de comunicação.

 

Luiz Paulo Lima

Luiz Paulo Lima

Jornalista, BK4 Comunicações

Comments: 2

  • Adriana Barbosa novembro 25, 2012

    Otimo relato Luiz, acho que como primeira experiência o Seminário visibilizou boas práticas passiveis a replicação em diferentes segmentos. Normalmente quando falamos de cultura negra, é sempre do ponto de vista da escassez, relatos do que não temos e o que precisamos ter e o Seminário apresentou um outro ponto de vista, o da abundância. O que temos de bom com qualidade, profissionalismo e sucesso.
    Parabéns a todos nós que atuamos em um segmento extremamente rico.

    Reply
  • RITA MONTEIRO dezembro 31, 2012

    Essa materia sobre como os pretos afroamericanos tratam as empresas que nao os representam deve servir de exemplo para o Brasil , ja passou da hora de adotarmos essa postura! Otima abordagem , so fiquei triste de nao estar na plateia ouvindo e aprendendo com quem sabe! Valeu feira Preta , Valeu Kultafro, juntos somos fortes!

    Reply

Leave A Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *