kultafro entrevista o cineasta Joelzito Araújo

Por Luiz Paulo Lima

 

Joel zito Araújo, Cineasta, pesquisador, escritor e roteirista, mineiro da cidade de Nanuque. Formou-se em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Arte da USP e fez pós-doutorado no departamento de rádio, TV e cinema e no departamento de antropologia da University of Texas, em Austin,nos Estados Unidos.
Dirigiu vários filmes reconhecidos nacional e internacionalmente, contextualizando como temática, o negro na sociedade brasileira contemporânea.Podemos destacar “O efêmero Estado”, “União jeová”, “A negação do Brasil”, “Filhas do vento”, este em particular ganhador de oito prêmios no Festival de Gramado.

Joelzito e Spike Lee (Divulgação) - Foto: Sumaya Lima

Joelzito e Spike Lee (Divulgação) – Foto: Sumaya Lima

Joel Zito nesta entrevista exclusiva ao Kultafro, apresenta a sua opinião sobre os mercados do audiovisual, Ancine, Cotas para produtores e sobre o seu mais novo projeto de cinema, “Raça”, que será lançado nacionalmente ainda este ano nas melhores salas de cinema.

1. A Nova Lei do Audiovisual 12.486, publicada em julho de 2012, e que passa a vigorar neste mês de setembro, faz com que os canais por assinatura passem a exibir nas suas respectivas grades uma programação nacional e independente no horário nobre, fazendo – em tese – uma mudança nas produções de conteúdos no Brasil. Em sua opinião, qual é a nossa real condição – empreendedores, produtores negros – de competir neste mercado? Essa nova legislação nos alinha no mercado com as tradicionais e grandes produtoras?

Joelzito: A produção para este novo mercado demandará boas ideias e projetos, e isto nós temos. Mas demandará bons roteiros desenvolvidos e um pensamento de mercado. Esses dois itens são mais problemáticos. Grande parte dos produtores afro-brasileiros que conheço ainda tem pouca experiência e poucos recursos financeiros para apresentar bons roteiros. O que demanda tempo, parcerias e dinheiro. Por outro lado, até esse momento de nossa história, as temáticas relativas à identidade negra ou a situação racial no Brasil não são consideradas como boas para o mercado televisivo brasileiro. A única experiência que tivemos que viu isso de forma diferente foi a TV da Gente, que infelizmente não prosperou.

2. Podemos ficar otimistas quando a Ancine – Agência Nacional de Cinema –prevê que essa Lei aponta para uma série de incentivos à produção nacional para TV paga? A começar pela obrigatoriedade de todos os canais de TV por assinatura exibirem um mínimo de 3 horas e 30 minutos de programação nacional em horário nobre, sendo 50% desse tempo ocupado pela produção independente?

Joelzito: Não. Enquanto o governo e o congresso brasileiros não exigirem uma cota para programas (documentais ou ficcionais) sobre a população afro-brasileira, continuaremos como parte dos temas tabus. Continuaremos sendo os chatos que ficam insistindo nesta coisa de identidade do negro em um Brasil que se considera branco, ou que deseja profundamente ser branco, que escolhe o segmento germânico de sua população como representação do belo e da modernidade. Desculpe o meu pessimismo, mas ele é fundamentado em pesquisa.

3. Saindo da telinha para telona, quais os novos projetos em curso?

Joelzito: Depois de lançar “Raça” [próximo filme de Joelzito] no Festival de Cinema do Rio, agora em outubro de 2012, pretendo voltar à ficção com uma minissérie histórica para TV, um filme de ficção e um documental a serem rodados majoritariamente na África. Os projetos estão prontos e estou submetendo a vários editais. Vamos torcer!

4. Você tem colocado seus filmes no sistema de venda Blockbuster? Se sim, o quanto representa esse mercado para produtos audiovisuais com recorte racial? Dá para mensurar, pois quando é feito o planejamento financeiro de um projeto para Cinema, tem de ser estratégico e almejar retorno financeiro?

Joelzito: Os produtos como o meu, que tem uma grande aceitação no segmento populacional negro, são sempre mal distribuídos pelo sistema homevideo. Portanto, sei que os meus filmes são bem conhecidos, mas as cópias piratas predominam. O distribuidor do mercado homevideo pensa como o exibidor em salas de cinema, que não existe mercado negro no Brasil. O que não é verdade no segundo caso. Somente as salas de cinema é que são frequentadas majoritariamente pelas classes A e B.

5. Você sempre defendeu a tese de que deveríamos olhar para os afro-latinos, além dos Africanos. Sabemos que tem projetos em curso voltados para esses dois cenários, é isso mesmo?

Joelzito: Tenho projetos voltados para reforçar o diálogo e o estreitamento de laços com a África. Tenho parcerias em curso em Cabo Verde, Angola e Moçambique. Mas, até o momento, não tive ideias para a América Latina, que tem o mesmo problema da ideologia do branqueamento que o Brasil tem. Mas é importante ampliar o nosso horizonte e buscar parcerias e projetos com a América Latina.

6. “Raça” é o primeiro longa-metragem sobre igualdade racial no Brasil a ser lançado nacionalmente? Pode nos contar um pouco desse projeto, no qual você compartilhou a direção com a documentarista americana Megan Maylan, ganhadora do Oscar com “Lost Boys of Dudan”, em 2008? O que mudou na concepção de um produtor e diretor que cada vez mais é reconhecido internacionalmente?

Joelzito: O que mudou é que percebi em minha história o quanto é difícil fazer um filme sobre a desigualdade racial no Brasil com dinheiro das empresas brasileiras, mesmo das estatais. Então comecei a buscar dinheiro lá fora. “Raça” foi feito com 80% de grana captada no mercado norte-americano, através de um filme que é uma co-produção com a empresa Principe Productions, sediada em Nova York. Mas a co-direção com a norte-americana Megan Mylan não foi uma imposição, foi resultado de uma boa amizade iniciada em 1993. Compartilhar a direção é difícil, especialmente para quem, como eu, que desde 1984 sempre dirigiu sozinho. E, no nosso caso, temos diferenças de gênero, raça e de formação cultural. Pode não parecer, mas nós brasileiros e norte-americanos, apesar de ocidentalizados, somos muito diferentes. Mas sobrevivemos a tudo isso, e tivemos um processo rico e definitivo em nossas carreiras.

7. Estamos lançando um novo projeto empreendedor em São Paulo. A kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra, com o objetivo apresentar um novo desenho de pensar gestão e participação no mercado cultural paulista como ponto de partida. Uma grande oportunidade para visibilizar os membros, suas expertises e participar dos negócios proporcionados pelo setor.

Joelzito: Acho que a kultafro é uma grande novidade e produto de nossa maturidade. E vocês estão à frente desse processo, criando uma rede de parcerias em que diferentes gerações se envolvem e procuram realizar coisas boas para São Paulo e para o Brasil. Dou todo o apoio. Acho que vocês serão exemplo para muita gente. Meus parabéns!

Comments: 1

  • Rita Monteiro outubro 24, 2012

    Muito Interessante a entrevista sobre diversos aspectos , incrivelmente a Kultafro traz novidades para a populacao afrodescendente brasileira sobre a vida e carreira de um dos nossos maiores cineastas , parabens a tdos!

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