kultafro entrevista Hélio Santos, fundador do Instituto Brasileiro da Diversidade e Presidente do Conselho do Fundo Baobá

Por Leno F. Silva

Hélio Santos é doutor em economia, administração e finanças e leciona no programa de Mestrado em Desenvolvimento Humano da secular Fundação Visconde de Cairu, em Salvador. É fundador e Diretor-Presidente do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá para a Equidade Racial e autor de “A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso” (Ed. Senac – 2000), ensaio que discute o desenvolvimento brasileiro sob a ótica sociorracial. Foi coautor de várias obras na sua especialidade e publica regularmente artigos sobre Desenvolvimento Humano e Diversidade. É também consultor de Gestão da Diversidade de várias organizações, como Itaú-Unibanco, Grupo Abril, CPFL e Ford Foundation.

Divulgação - Foto: Luiz Paulo Lima

Divulgação – Foto: Luiz Paulo Lima

1. Como os negros estão inseridos, hoje, no mercado brasileiro?

Hélio Santos: Historicamente, a participação do negro sempre esteve abaixo de seu justo potencial. Essa afirmação vale para a educação, mercado de trabalho e, em especial, para os meios de comunicação.
A diversidade etnorracial ainda não é vista como um agente propulsor do desenvolvimento no país. Apesar de um discurso favorável já existente, é fundamental que passos efetivos sejam dados nessa direção.

2. Quais os avanços conquistados nos últimos anos nesse cenário?

Hélio Santos: Em termos de consumo, os negros movimentam por ano cerca de 673 bilhões de reais e constituem 45% da classe C (1). Essa população equivale a quase uma Argentina!
Os avanços vêm acontecendo na Educação e no mercado de trabalho, mas falta qualidade na inserção negra. Ela ainda se mantém periférica.

3. Na sua opinião, qual o papel da kultafro no processo de inclusão dos negros no mercado de trabalho?

Hélio Santos: O surgimento da kultafro se dá no momento certo. A criatividade negra é uma riqueza imaterial da qual ainda não nos beneficiamos como devemos.
A Economia Criativa é o vetor do desenvolvimento do século 21. O Brasil, como o maior país negro da Diáspora, e São Paulo, como a cidade com maior população negra do País, fazem juz à kultafro.
A indústria cultural em todas as suas vertentes, notadamente no entretenimento – lazer, culinária, artes em geral – mais o design, vídeo, mídia, moda e o turismo cultural são setores com um potencial a ser explorado pelos nossos empreendedores culturais, tão talentosos e pouco aproveitados.
O que me anima muito com essa iniciativa é a contemporaneidade dela: o desenvolvimento do negócio cultural num país que busca se modernizar e competir no campo cultural fora de suas fronteiras.
A kultafro me instiga porque mescla oportunidades/valorização da diversidade com desenvolvimento em um campo em que os profissionais negros têm tudo para triunfar e progredir.
O desafio da kultafro não é apenas político, mas será, sobretudo, de gestão, pois se trata de um tipo de institucionalidade nova que requer o desenvolvimento de um modelo singular para funcionar.
A kultafro pode começar a escrever uma história nova e diferente para o empreendedorismo cultural negro, que sempre esteve aquém – bem aquém – de seu justo potencial.
O IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, vê com absoluto otimismo essa inciativa que convalida a sua missão de valorizar a diversidade da qual a economia criativa é filha legítima.
A kultafro deve buscar financiamento e apoio institucional públicos com base na ideia da ação afirmativa – política pública já consagrada no Brasil.

*1 Data Popular/Fundo Baobá – 2011

Comments: 1

  • Paulo Henrique novembro 17, 2012

    O Prof. Hélio Santos, como sempre, com sua sagaz visão à enxergar em vanguarda a realidade sócio-brasileira, eloquentemente, mais uma vez nos ensina os melhores caminhos para a emancipação da cidadania negra. Parabéns Kultafro, e muito axé à seus integrantes. Vosso sucesso será também nosso: afrobrasileiros. E vosso desafio na supressão do controle do poder econômico para a produção cultural, nossa certeza de uma incomensurável conquista.

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