Entrevista com a escritora Ligia Ferreira sobre o seu livro “Com a palavra Luiz Gama”

Por Luiz Paulo Lima

 

Profa. Dra. Ligia Fonseca Ferreira é docente da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Bacharel em Letras e Linguística pela Universidade de São Paulo, doutorou-se em letras pela Universidade de Paris III – Sorbonne, com a tese sobre a vida e obra do ex-escravo, escritor, jornalista e advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882). Tem vários artigos publicados no Brasil e no exterior sobre este tema e outros conexos. Organizou, como trabalhos pioneiros, a reedição crítica de “As Primeiras Trovas Burlescas de Luiz Gama e Outros Poemas”, pela editora Martins Fontes (2000), e a antologia crítica “Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas”, com prefácio do eminente jurista Fábio Konder Comparato, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em agosto de 2011.

1. Em seu recente livro “Com a palavra Luiz Gama”, você destaca a importância das múltiplas faces e múltiplas vozes pouco conhecidas desse poeta, advogado, jornalista, maçom, abolicionista e republicano negro. Em que medida o imaginário coletivo sobre essa grande personalidade pode ser alterado, com as revelações e observações inéditas presentes no seu livro?

Ligia Ferreira: Quis mostrar um Luiz Gama que não era um “personagem”, um tema meu. Achei que seria importante trazer o que tinha de mais poderoso: sua voz. Se a gente se detém apenas na história de vida excepcional de Luiz Gama, corre o risco de ficar de frente para uma árvore, esquecendo-se que por trás dela existe uma floresta, mais rica, densa, diversa. A floresta Luiz Gama é seu legado, e esse legado são os seus escritos, de natureza e de gêneros variados, reunidos no livro: poemas, artigos, cartas, máximas.
A começar pelo título, eu quis dar a entender que eu me colocava como uma “mestre de cerimônias”. Cada ensaio de apresentação das diferentes partes do livro, se encerra com o chamado “Com a palavra Luiz Gama”, que foi também de colocar em cena não só o Luiz Gama. No fundo, com essa estratégia na composição desse livro, meu objetivo é fazer com que Luiz Gama ganhe sua estatura real. Porque nós desconhecemos o que ele fez, como fez e com que redes. Meu sonho é que todos brasileiros se interessem por esse cidadão que lutou por todos e por um país diferente, onde fizessem sentido os valores republicanos, hoje esquecidos.

2. Com que outros intelectuais e ativistas negros brasileiros podemos traçar um paralelo?

Ligia Ferreira: Primeiramente, é preciso lembrar que ele é o mais velho dos poucos abolicionistas. É o único a ter passado pela experiência da escravidão, dos 10 aos 17 anos, o único autodidata, e o único a ter atuado, praticamente sozinho, em SP. Luiz Gama tem um papel fundamental na história da literatura brasileira: ele é o primeiro autor negro que se enuncia como tal. Como eu disse, Luiz Gama era um homem de redes, além de ser um homem da comunicação, que usou todas as mídias de sua época, algumas até de forma pioneira. Num texto ainda inédito, que deve sair num livro de História em breve, eu procuro mostrar como, depois de ter inscrito a primeira voz negra na literatura, ele também inaugura uma voz negra no abolicionismo. E, então, para a sua pergunta, embora estivesse em São Paulo, que estava longe de ser a metrópole influente de hoje, Luiz Gama manteve contato com os outros abolicionistas negros de maior expressão, que atuavam na Corte. Refiro-me aqui a José do Patrocínio, a André Rebouças, e a uma figura não muito conhecida, mas que serviu de ligação entre eles, que foi Ferreira de Menezes, fundador da Gazeta da Tarde, que viria a ser o principal jornal abolicionista do Rio de Janeiro.

Denny Glove , Aliane Cavalleiro e Ligia Ferreira em Los Angeles - Divulgação

Denny Glove , Aliane Cavalleiro e Ligia Ferreira em Los Angeles – Divulgação

3. Duas máximas ou pensamentos filosóficos me chamaram a atenção no livro: “A escravidão nasce da moral religiosa e tem sido tolerada por todas as seitas…” e “Se tão horroroso é o diabo pintado pelos padres, o que seria dos padres se os pintasse o Diabo”. Qual era a visão e como Luiz Gama se posicionou sobre o papel da Igreja Católica na sua época?

Ligia Ferreira: Gosto muito do seu exemplo, aliás, existem centenas nos escritos de Luiz Gama, que denotam seu humor e sua fina ironia. É muito prazeroso ler e ouvir Luiz Gama. Com relação à Igreja, o espaço aqui será pouco, mas ele foi um crítico contumaz dessa instituição primeiro por ela estar totalmente comprometida com o regime escravista. Além de ser proprietária de escravos, a Igreja também mantinha criatórios e comercializava cativos. Há uma outra faceta de Luiz Gama que também explica essa postura anticlerical, que é o fato de ser republicano e maçom.

4. A corrupção não é um assunto novo na história brasileira. Como Luiz Gama abordou esse tema, uma “herança” que parece não ter fim, e como via “justiça” naquele período?

Ligia Ferreira: Ele foi um crítico severo do comportamento dos magistrados e essa foi uma das facetas que caracterizaram a sua militância. Nos jornais paulistanos, escrevia frequentemente sobre este tema, expondo e comentando os “erros” em despachos e sentenças proferidos pelos juízes, e que em geral prejudicavam escravos de modo geral, e em particular africanos ilegalmente escravizados.

5. Hoje vemos as cenas midiáticas dos julgamentos no STF, visibilizando os casos de corrupção, nepotismo, impunidade, acompanhados com o maior interesse pela população e nas redes sociais. Me faz lembrar coisas que eu li em artigos reproduzidos em seu livro?

Ligia Ferreira: É fato. Se fosse vivo, o jornalista Luiz Gama estaria sem dúvida entre os mais concorridos comentaristas jurídicos. O que vemos hoje retrata algo que permaneceu profundamente arraigado nos nossos costumes, inclusive nossa inadmissível tolerância em relação ao que você mencionou. Esta estrofe de uma das suas sátiras políticas é bem reveladora, além de atual: “Se a justiça, por ter olhos vendados,/ É vendida, por certos Magistrados,/ Que o pudor aferrando na gaveta, /Sustentam — que o Direito é pura peta;/E se os altos poderes sociais,/Toleram estas cenas imorais ;/Se não mente o refrão, já mui sabido:/ Ladrão que muito furta é protegido /É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,/ Onde possa empantufar a larga pança!” (Sortimento de gorras para a gente do grande tom)

6. Recentemente, você esteve nos Estados Unidos, apresentando um trabalho no Congresso da Associação de Estudos Latino-americanos, abordando o tema da América nos escritos de Luiz Gama. O que você teria a destacar?

Ligia Ferreira: Várias coisas, especialmente porque Luiz Gama, como muitos republicanos e maçons paulistas veem os Estados Unidos como um modelo político ideal para o Brasil, ou seja, uma república “teoricamente” de homens livres. Estamos falando dos anos 1860, quando ao fim Guerra Civil, foi abolida a escravidão naquele país. Não à toa, Luiz Gama foi membro fundador da loja maçônica América. Ele foi um dos primeiros a propor que, depois da república, o país adotasse o nome de “Estados Unidos do Brasil”. Vejo, sim, um paralelo entre Luiz Gama e o emblemático afro-americano Frederick Douglas, um ex-escravo que se torna igualmente um ardoroso abolicionista, jornalista e advogado. Porém, chamou-me atenção o fato de Luiz Gama não aludir aos conflitos raciais naquele país.

7. Até o momento, falamos de Luiz Gama vivendo num mundo predominantemente masculino. Ele se refere às mulheres em seus escritos?

Ligia Ferreira: Sim, claro. É numa carta de Luiz Gama a um amigo em 1880 que ele diz ser filho da africana Luiza Mahin, que se tornou, às vezes um pouco abusivamente, um mito libertário. No seu livro de poemas Primeiras Trovas Burlescas (1859), ele satiriza a “atroz perua” (olhe que interessante), ou seja, a mulher que é escrava da moda, vista por ele como (ou seria “com”?) suprema futilidade. Mais uma vez inovando, Luiz Gama foi o primeiro poeta a dedicar versos à mulher negra, como nestes: “Meus amores são lindos, cor da noite/ Recamada de estrelas rutilantes; /Tão formosa crioula, ou Tétis negra, /Tem por olhos dois astros cintilantes (…).”

Comments: 2

  • Luiz Paulo Lima
    Luiz Paulo LIma dezembro 28, 2012

    Estive rentemente como convidado na Loja Américas (Maçonaria) em São Paulo, em uma homenagem da instituição à Professora Dra.Ligia Ferreira pelo belo trabalho pesquisado e publicado sobre vida e obra de um dos seus membros, o abolicionista,jornalista,escritor, advogado e maçon Luiz Gama.Foi uma cerimônia ritualística, e de muitos significados, pois tal atividade pública, além de visibilizar um negro brasileiro que fez história, faz com que os ideais republicamos mantenham-se sempre vivos , Parabéns Ligia…!!!

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  • RITA MONTEIRO dezembro 31, 2012

    Incrivel , eu me recordo agora la atras no colegial um diretor de minha escola falar um pouco de Luiz Gama , mas no geral a escola brasileira nao se fala muito desse escritor, pelo menos na minha geracao quase nao ouvi nada sobre ele. Obrigada Luiz Paulo Lima.

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